segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Céu da boca

Um carro desgovernado. Uma estrada sem placas. Vazia. Eu podia ir para qualquer sentido. Todas aquelas opções eram sufocantes. Eu tinha medo. Tenho. Teve um momento que eu resolvi parar. Estava tudo escuro e luzes apenas de umas vaga-lumes sem muita energia. Era dessas noites sem estrela. As minhas preferidas. Mas nunca sozinho. Apavorar (estar) é um verbo que se conjuga no plural. Diferente do amar. Verbo solitário. Egoísta. Traiçoeiro como poucos. Cheio de mistério como uma estrada deserta no breu. Voltei para o carro. Chupei meu dedo indicador por duas vezes. Gosto amargo se espalhando pelo céu da boca. Acelerei. Eu dirigia concentrado em um ponto luminoso muito distante. Demorei a perceber que por mais que eu acelerasse, o ponto ficaria mais perto. Demorei a entender que por mais que eu avançasse, o ponto mais distante ficava. Precisei capotar duas vezes para perceber que eu precisaria esperar aquela luz se aproximar de mim. Eu poderia ficar sentado ali no meio da pista. Aguardando.  Pensei por alguns segundos e resolvi ir caminhando. Sem rumo. Sem nenhum receio. Sozinho.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Galho


Você nunca deveria ter ido a aquele aeroporto. Hoje, me veio a imagem perfeita de você me esperando em frente o check in. Sentado no chão, ouvindo música - The Smiths, Bowie ou The Cure? - e com um sorriso amarelo. Não tinha dentes bonitos. Quem pode acreditar que no meio disso tudo, eu reparei nos seus dentes? Me disse que se sentia estranho. Não tínhamos muito assunto. Era a segunda vez que nos encontrávamos. A primeira vez à paisana. E provavelmente, era para ser a última de qualquer modo. Eu queria que aquele terminal fosse maior, torcia por um overbooking ou um simples atraso de muitas horas. A gente se olhava e parecia que um refletia o desejo o outro de maneira tão explícita que não era necessária uma só interjeição. Eu tinha que embarcar. Nos abraçamos.  Era para ser o último abraço. Nos beijamos. Era meu primeiro beijo fora da bolha. Entreguei meu passaporte e segui com meus neurônios dançando flamenco. Uma castanhola ecoando no tórax. Eu já estava dentro do avião esperando a decolagem quando percebi que brotava algo nos meus pés. Tentei chamar a aeromoça, mas ela precisava ajudar um casal com gêmeos choramingantes. A sola dos meus pés coçava e eu tirei meu tênis. Minhas meias estavam rasgadas. Minha pele se abria e meu dedos iam se envergando com garras. Um tipo de galho espinhoso ia saindo depressa do meu calcanhar esquerdo e foi perfurando o chão do avião. Alarmes começaram a soar. Eu percebia toda movimentação da tripulação e tentava avisar o que estava acontecendo comigo. Eles só pediam para eu ficar calmo e não me ouviam. Senti uma pequena queimação quando o ganho avançou pelo asfalto da pista e depois pelo solo. O comandante avisou que por problemas técnicos, iríamos precisar desembarcar. Organizaram a saída. Eu não conseguia me levantar. Os passageiros ao meu lado estavam impacientes. Apontei para baixo e eles simplesmente se limitaram a pular por cima de mim. Falaram alguns desaforos e foram embora. Finalmente, um comissário veio até mim. Tentava ser educado, mas pedia para eu sair do avião imediatamente. Mostrei aquele galho que tinha surgido de dentro de mim. Ele não soube o que falar e muito menos esconder o espanto. Do lado de fora, uma equipe grande se movimentava e inspecionava aquele rombo na fuselagem da aeronave. Já sabendo a origem, não demoraram para chegar até meu assento. O avião não poderia ficar parado na pista por muito tempo. Os voos seguintes precisavam de espaço. “Vamos serrar esse galho”. Eu não tinha opção. Apenas tentava entender como aquilo tinha acontecido comigo. “Não conseguimos”. E nada mais que essas duas palavras junto com uma cara desespero. Pedi uma faca e disse que cortaria meu pé fora. Seria um corte e tudo resolvido. Tudo mudou. O galho agora crescia em direção oposta e eu fui sendo levantado para fora da cadeira até bater a cabeça forte no teto. Todo em silêncio. O céu ia aos poucos surgindo. Menos de um minuto e já estava acima do aeroporto. Eu via os prédios, o rio, os bosques, os cemitérios e tudo que tinha em volta. Sentia o peso das nuvens e frio da altitude. Estava num estágio que há bem depois do medo e eu nem sabia que existia. Bem baixo escutava um ruído bem agudo. Não tinha mais castanhola, ninguém mais dançava flamenco. O ruído foi crescendo. Outros sons estranhos foram aparecendo. Um estrondo. Um grito. Senti uma dor forte no pé. Os dedos voltavam a forma normal. O galho foi enfraquecendo até ficar morto até ficar podre até quebrar. E eu despencar em queda livre e parar no mesmo lugar de onde eu já nem lembrava ter saído.

sábado, 7 de novembro de 2015

40 minutos

A ideia é bem simples: andar pelo menos 45 minutos. A complexidade mora na rotina. Fazer isso todos os dias de segunda a sexta e depois incluir sábado. Primeiro dia. 19 de outubro. Resolvi usar um tênis comprado há dois anos e nunca usado. O motivo: forma pequena para pé largo. Desafio 2: abstrair o calçado apertado. Preguiça vencida. Conversas incompletas no whatsapp. Ipod sem bateria. Eu faria companhia a mim mesmo. Trajeto: indefinido.

Noite agradável. Não faz calor e nem frio. General Polidoro vazia com uma pizzaria aberta com uma mesa ocupada. Professor Álvaro Rodrigues com pouco movimento e bares fechando. Praia de Botafogo com Voluntários da Pátria sem fervo e trânsito. Sigo pela praia. O Aterro está sem ninguém e não atravesso. Visconde de Ouro Preto virou um reduto de moradores de rua. Muniz Barreto é apenas uma passagem para uma rua que nunca guardo o nome: Vicente de Sousa. Rua curta e que me leve para Bambina a contra gosto.

Não queria encontrar conhecidos pelo trajeto e evitar ruas onde já passo. A Bambina é uma delas que para piorar me prende até a São Clemente. Viro em direção ao Humaitá na intenção de ir até a Real Grandeza, mas viro na Sorocaba e olhando os prédios percebo que nunca tinha passado no trecho até a Voluntários.  O conjunto arquitetônico de Botafogo é sem dúvida um dos grandes atrativos do bairro e cada vez mais morre a cada prédio inteligente e de varanda de vidro. Na Voluntários, sigo até a Dona Mariana e depois pego a Mena Barreto. Trecho bem conhecido. Já estou bem perto de casa. Não tenho noção de tempo. Viro na Teresa Guimarães e vejo um prédio art-deco que grita por um reforma.General Polidoro novamente. O suor foi mínimo.   

quinta-feira, 19 de março de 2015

Diálogos hipotéticos dois (in progress)

#2

Turista bêbado liga para Admilson
Admilson via whatsapp: Não atender (sic) agora
TB: Tudo bem. Mas já sabe que não sou enrolado ou o que você achou que eu seria.

(40 minutos depois)
TB: ?
A: Oi
TB: Opa
A: Quando vai embora? To com a bateria fraca
TB: Vou embora na segunda. O que está fazendo?
A: Passei na casa do meu amigo. Se quiser depois passo ai. Mas quando for para o carro carregado
TB: Estou na Praça Roosevelt. Eu quero que você passe. Você quer passar?
A: Quero! Fazendo o que aí?
TB: Bebendo e vc?
A: Sozinho?
TB: Com um amigo.
A: Amigo de foda?
TB: Amigo de amizade
A: kkk
TB: Tô numa vibe mais tranquilo depois de tanta vodka
A: Já falo com você
TB: OK! Espero. Dorme comigo?

(Uma hora depois)
TB: Vim para o hotel sozinho

(Sete horas depois)
A: Desculpa, acabei cochilando
Turista de ressaca: Relaxa :) Tudo bem?
A: Sim e aí?
TR: Aqui também. Só uma ressaca chatinha. Fome também.
A: To com fome também. Você fuma?
TR (???): Não, por quê?
A: Porque não gosto.
TR: Nunca fumei
A: Manda foto sua
TR: Que tipo de foto?:P
A: Todos
TR: Mais fácil você vir aqui e me ver ao vivo :)
A: Te pedi foto
TR: Eu sei. 
A: Complicado ir aí.
TR: Por quê?
A: Porque é ruim para parar. Trânsito ruim.
TR: No domingo, tá bem tranquilo. O que mais tem é estacionamento aqui no Jardins.
A: Super caro
TR: Bem, não vi preços
A: E você não sabe também?
TR: O quê?
A: Vir
TR: Não sei, não. Você está no Ipiranga, né?
A: Ir na Roosevelt você sabe?
TR: Sim, sim. Tava lá ontem. É fácil.
A: E você não sabe pegar um metrô?
Turista ficando puto: Diz aonde você quer chegar com essas perguntas?

A (via mensagem de voz): Quem chega na Roosevelt, chega na minha casa, Agora, é fácil querer que as pessoas vai (sic) até você sempre
Turista pasmo: Eu cheguei à Roosevelt porque eu sei onde é a Roosevelt (risos). Eu não chego na sua casa porque eu não sei onde é a sua casa. 

(continua) 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Diálogos hipotéticos (in progress)

#1

AR: - Achei que as coisas estavam indo rápidas demais. Você até me chamou de "tourinho"
BR: - Com 12 anos de Brasil vocês deveria saber que no diminutivo vive tanto o carinho quanto a ironia. 

#2

Sr. Faz doce: - Estamos em uma época de boas relações com grandes eventos. Isso será extremamente positivo para nós.
Sr. Não to a fim: - Caguei!


#3
Judeu Fake (15:49): - Sumiu de vez...
Judeu Suburbano (19:44): Sumi nada... hahahah to sempre aqui.Você que tá meio distante não sei por que. Não quer mais falar comigo, é? rs. Como que anda tudo por aê? 
JF (19:45): Eu??? Sempre quero. Estou bem. Enrolando para arrumar meu quarto hahaha
JS (21:46): Esse fim de semana, meus pais me obrigaram a pintar meu quarto porque meus amigos iam vir para cá rsrs. Hein, to namorando... (vários emoticons de apreensão). Mas, espero que possamos ser amigos, né... Você é uma pessoa super do bem. E o que aconteceu de bom por aí?
JF (23:26): Opa. Eu deixei meu celular carregando...

#4
Aprendiz de michê: - Rodrigo?
Comeu de graça: - Errou! hahahaha
ADM: - Se não quer falar bem. Não perguntarei. Não tô vendo foto.
CDG: - Relaxa. hahahhah

#5
Peruano cara de velho: - Oi BR! Boa tarde (emoticon de sorriso fofo e bochechas rosadas)
BR: (Quase 19 horas e ou ele ainda não aprendeu falar "boa noite" ou não ainda não se entendo com o sistema de 24 horas?) - Opa. Blz?
PCDV: - Tudo bem (emoticon com sorriso fofo e bochechas rosadas). E você? Como vai?
BR: - Cmg tb. Tudo bem.
PCDV: - Legal (emoticon piscando) O que fazendo (emoticon com sorriso fofo e bochechas rosadas)
BR: - Estava comendo (e não era você)
PCDV: - Certo, daqui a pouco farei o mesmo, já é hora do lanche. Eu estou assistindo um filme no computador. Rio 2 rsrs
BR: (Who's cares??????? ZZZZZZZZZZZZZZZzzZzZzz) :)
PCDV: (emoticon mandando beijos)


terça-feira, 1 de julho de 2014

Caos canônicos ou romanos

Você pegou uma garrafa de vinho tinto, aquele sobretudo comprado em uma liquidação na Via del Corso e uma maço de cigarro. Podia chover, podia fazer frio e vir caco de vidro. Estava preparada. Seus cabelos cacheados e um sotaque francês carregado. Ciao! Dito em olhares e sem nenhum som. Termina o vinho. Garrafa estardalhada no chão. Pisa com força como se fizesse um cerol para afiar seus longos saltos. Quatro lances de escadas. Uma selfie na ponte metálica. Garbatella! Você não tem medo da velocidade do metrô, não é mesmo? Aposta corrida com os vagões e sempre ganha. Duas linhas é pouco para você que vai longe. Sem medo e sem dramas.

Um beijo no namorado azul e amarelo da Praça São Pedro. É proibido. Mas, dos desvios ali é o mais puro. Não tem ambição de ser a nova Maria. Sabemos: está mais para Madah. Não há culpa, não trabalha com isso. O confessionário era para os lerdos e organizados. O pecado é absolvido no esquecimento e a sua memória é de pólvora. Segue sem rumo, sem preocupações. Compra mais uma garrafa de vinho no supermercado da estação Termini. Abastece o estoque de baseado com os colegas da marquise e ainda pechincha. Ganha uma bala de brinde para a sexta na Mucca. 

Tem dias que você se pega feliz e não se preocupa com o motivo. Uma foto com um turista olhar triste e olheiras perto da fonte da Piazza Navona. São quatro rios, mas vocês posam na frente do da Prata. Ele ri. Pede uma dele sozinho e vai embora para Trastevere. Você ficou e tomou conta dele até que ele subisse na esquina da embaixada tropical. Mais uns goles. Dois cigarros. O dia está nublado e você acha lindo.

Há momentos de muito mau humor. Dias trovoados. Num surto de raio derrubou uma saudita de burca e tudo na Fontana de Trevi. Não olhou para trás e muito menos jogou moeda. Tinha pressa e não desejos. Ela molhada saia da água cheia de moedas no véu e feliz por exibir suas curvas para tantas nacionalidades de homens. Machos! Ela se sentindo feminista e você apenas preocupada em chegar a tempo para comprar uma nova frigideira e um conjunto de pratos ou tomates secos no Campo del Fiori. Quando chegar em casa, talvez cozinhe com azeite trufado ou apenas ouça música deitada na cama. Talvez desça para um bar ou talvez chore sozinha enquanto leva a cachorra para passear.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O drink de Veneza


Era um dos últimos a sair do restaurante. Ajudava a lavar os pratos, a recolher os cardápios e organizar de acordo com o idioma. Quando a porta metálica estava abaixada, ele tirava o colete e abria os primeiros botões da camisa. Não se importava se o gel do cabelo ainda estava fazendo efeito e se as sobrancelhas ainda estavam penteadas. Se despedia dos colegas e ia andando pelos becos segurando sua mochila. Tinha que atravessar 10 pontes até chegar a Piazza de Roma e seguir para casa.

Havia dias em que vendava os olhos e tentava acertar o caminho pelos cheiros e pelos barulhos. Se sentia mais cheiro de frutos do mar sendo cozidos é porque estava perto da Piazza San Marco e alguma coisa tinha acontecido, pois era a direção oposta. Isso dificilmente acontecia porque as vozes babilônicas e o som do tango sempre o afastava do erro. Cheiro de hambúrgueres sinalizava que não deveria ir com pressa para evitar cair no Grande Canal. Se era invadido pelo odor do Falafel, ficava feliz. O Ghetto era um dos seus lugares preferidos e sempre tentava uma vaga em algum apartamento na região.

Por conta dos horários, todo mundo achava que ele só fazia o trajeto casa-trabalho e que no máximo se divertia em alguma discoteca decadente de Mestre. Mas, ele era discreto e não falava que adorava se divertir invadindo gôndolas a noite para encontros fugazes. Muito menos que adorava deitar no chão do Campo de Santa Maria Formosa para ver nuvens. Nunca foi fã de constelações. Gargalhava Alto com algumas formas. Irônico para quem vivia em uma cidade em formato de peixe.

Nunca se atrasava, mas quando queria ganhar tempo, atravessava as feirinhas de produtos naturais e se jogava entre as Calles labirínticas como quem se move em linha reta pela laguna de Lido até a Giudecca. Chegava sempre arrumado. Tomava dois goles de Spritz que eram melhor que qualquer café expresso. Mais alguns minutos tudo estava em seu lugar e ele na porta do restaurante com sorriso na mão e ímã nos olhos. Era a isca que todo mundo queria morder.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Florença em dois tempos


Não, não foi amor à primeira vista. Eu te olhava ali parada e senti o calor vindo junto com um vento fraco. Caminhando por aquela pista e surdo pelo barulho das turbinas. Olhei para ele também. Cabelo raspado lateral, calça jeans cintura baixa e sorriso de ruborizar qualquer cafajeste. Lugar comum. Nunca cansa. Nunca canso. Ninguém cansa. Eram tantos destinos, formas de ir e nenhuma de ficar. Uma estação no meio do vazio. Via a cidade brotando do meio das ruelas. Via para a direita. Via para a esquerda. Um terremoto e Santa Maria del Fiori nos vesga com seus detalhes. São escadas que não param de subir. Falam espanhol e entendem português. São portas que não param de se abrir. Parlam italiano. Não servem capuccino, não gostam que peçam que mude o ponto da carne e se recusam a comentar sobre molho pesto. Ele canta entre as mesas desocupadas. Joga charme para os guardanapos e para a caixa registradora. Sorri e tenta explicar sem cantar que a minha mochila estava ficando para trás. 

O carrossel joga a gente sempre para o mesmo lugar. Mas, quando se tem tempo, repetir os quarteirões é a graça do jogo. O rio Arno flui tão lento como se cada gota também quisesse se eternizar como cada edifício, pedra de rua ou ponte. A Vecchio nada mais que uma favela renascentista. Não há deboche ou heresia. Apenas não há paixão. Mama fala para ir com ela enquanto se equilibra nos saltos pretos. Todos acordam junto com o sol e esperam por Davi. Esperam pelos degraus da igreja. Temos apenas frio, preguiça e fome. Mergulhar em imenso foccaccio é a distração. Ela caminha a passos lentos e pede euros. Ganha pão, queijo e salame. A coca-cola é cara o suficiente para transformar uma possível caridade em mecenismo. O trem corta a Toscana. Prato Centrale. Desce.Sobe. Bolonha. Desce de novo. Sobe mais uma vez. E vai para o Veneto. 

***

Havia uma má vontade e nenhum desejo de voltar. O estomago não reclama em não ganhar um carbonara e brinda àquele Quarto de libra. Os óculos, os fones coloridos e bugigangas afins custam 20. A polícia chega e tudo vai para o papelão ou trouxa. A polícia vai e as bancas improvisadas reaparecem. Uma negociação e os óculos custam 5. O fone jaune c’est cinq. Amarelo também é a nova cor do rosto. Também por cinque. Pelo dobro, o tênis é vermelho. Ele tirava cada tulipa de chope como quem ordenha uma cabra premiada. O roteiro da comida já é conhecido e sabor deve ser a surpresa. Boa. A gente se perde na margem do rio e se encontra na ponte Américo Vespúcio. O vinho é servido em copos descartáveis como seu corpo e seus sentimentos. Rico, o bulldog, olha para a gente como olhar de bilheteiro de cinema de rua sobrevivente.

Um atalho na noite e a estação aparece simples. Já havia uma empatia. Cada esquina já era motivo de rir. Florença, Firenze, Florence ou Florezia. Todo mundo queria uma lasca da sua história e tantos outros em idiomas e expectativas diversas. Eu andava com meu casaco azul surrado e reverberando todas as taças e copos de vinho da noite. O carro azul passa na contramão e para. O farol chama. A buzina chama. E a curiosidade berra. Uma senhora de cabelos desgrenhados como uma peruca velha acena. Robe aberto exibindo o corpo rechonchudo massacrado pelo espartilho apertadíssimo. Um convite lingual para uma cross-aventura pela Toscana. Grazie, mas não.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

der Feigling

Olha para essa janela e acha que essa vista é tudo? Você sabe que não. Nós sabemos que não! Cada exclamação sabe que não. Segura esse copo cheio de vodka com gelo e fica hipnotizado pelo barulho das pedras batendo umas contra as outras. Tudo vai derreter e você vai ser obrigado a aguentar o silêncio. Vai torcer para um carro passar em alta velocidade ou um mendigo encachaçado gritar e quebrar garrafas pela rua. Vai ter que ouvir a minha voz gritando bem dentro do seu ouvido. “Covarde!”.  Só vou precisar falar uma vez e depois co var de vai ecoar dentro da sua cabeça. E será a sua voz que vai te perturbar.  Sua risada sarcástica vai arranhar seus tímpanos e vai te deixar louco como se uma abelha tivesse entrado por sua orelha.  E depois de mais um tempo essa abelha vai começar a se multiplicar e logo uma colmeia zumbindo e berrando: COVARDE!  A abelha-rainha logo  começará a se alimentar de cada um dos seus neurônios. O zangão dos seus sentimentos. As operárias vão querer devorar seu corpo inteiro por dentro. Ferrões vão brotar no lugar dos seus pelos. Ninguém vai mais poder te tocar. Eu não vou mais. E nem você mesmo vai conseguir encostar sem arder.  Sabemos que logo chorará de raiva, depois de tristeza, de revolta e depois de arrependimento. Suas lágrimas serão de mel e logo ficará todo lambuzado. Vai atrair vespas rivais e sua pele melada vai virar um campo de batalha. Só te restará ficar paralisado, sozinho, no meio de um parque frio e com árvores sem folhas.  Vai sentir saudade da minha voz e nessa hora, eu continuarei mudo.


sábado, 5 de abril de 2014

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Jogo

Ela pensava que era um jogo sem regras. Achava interessante a idéia jogar por jogar e ainda ganhar no final. Achava que tudo seria como uma grande corrida em um descampado plano ao vento. Se imaginava de cabelos soltos e deixando tudo fluir de maneira livre. A graça e o objetivo do jogo era esse: liberdade. Quando o que se poderia chamar de partida começou, ela percebeu que havia regras. Muitas regras. E que elas iam surgindo e mudando à medida que ela jogava. Não jogava sozinha, obviamente. Ela percebeu que a liberdade até poderia existir mas no lugar de uma planície, um misto terreno arenoso acidentado. Não era possível sair correndo ao acaso. Era preciso entender cada nova regra e a sua conseqüência. Assim, tudo foi sendo feito.

Conheceu aquela linda uruguaia na saída do metrô do Flamengo. Uma espécie de esbarrão. Lucia preferia dizer que elas se chocaram. Como duas placas tectônicas. Os efeitos ainda estão sendo medidos, mas por dias elas sentiram um terremoto dentro de seus peitos. Lucia falava um português tão peculiar que sempre chamava a atenção dos interlocutores. Não era uma questão de sotaque. Era a construção das frases e a velocidade com que pronunciava  as palavras. Representava no tempo o sentido do que queria dizer. Para Lúcia, tinha lógica, é claro. E depois de uma semana juntas, Mélia passou a falar do mesmo jeito.

O primeiro passo de Mélia, durante o jogo, foi olhar para os olhos de Lúcia de uma maneira que em instantes ela estivesse percorrendo a mente da outra. Lúcia deveria apenas se manter calada e jamais fugir o olhar. Essa talvez tenha sido a primeira regra a ser criada.  Mélia caminhava pelos pensamentos da uruguaia com o cuidado de não derrubar nada. Não que fosse proibido o passeio lá dentro, entretanto Mélia deveria sair da mesma maneira que entrou. Quando fechou os olhos e cortou a conexão com Lúcia, conheceu uma nova regra: deveria agir como se não tivesse visto nada e como se não soubesse dos traumas, medos e, sobretudo as mentiras de Lúcia. As descobertas não eram para ser esquecidas, mas deveria ser ignoradas como um bibelô barato que insiste em enfeiar a sala de estar. Por algum motivo ele precisa ficar ali na estante, gostando dele ou não.

Mélia era carioca. Não achava que isso determinava nada na sua vida além de um gentílico a ser preenchido em alguma ficha cadastral. Mesmo antes de conhecer Lúcia, ela não chiava nos esses e nos xis. O erre era sutil, porém com uma pronúncia arredondada com uma bola de bilhar. Seu cabelo parecia estar sempre impecável, como se ela gastasse horas o deixando daquela maneira. E ela realmente gastava. Dormindo. Ao acordar, tudo pronto e ela só se preocuparia em escovar os dentes. Tão brancos.

A intensidade que Lúcia iria morder Mélia era ilimitada. Se os caninos encontrassem com os ossos da carioca era prudente não avançar, mas ela poderia seguir se tivesse forças. Mélia poderia gritar desde que houvesse oscilação no tom e os intervalos de respiração não fossem mais fortes e demorados que meio centímetro de mordida. O tempo era medido com uma régua.  Antes que possa parecer, não era um joguete sádico. Primeiro porque não trabalhavam com o conceito de dor – talvez nem com o de prazer – e porque as duas tinham pavor de couro, máscaras ou chicotes (por certo, tinham uma visão primaria da prática sado-maso).

Descrever as regras, consequências e as implicações do jogo seria uma bobagem. Seria cansativo e seguramente ao fim da listagem, o jogo teria outras novas. Seria fácil classificar com um jogo que muda toda a hora. Mas, nem hora ele tinha e na impossibilidade de fixação, havia a impossibilidade de se falar em mudança. Uma vez iniciado, não tinha volta – a última regra a ser conhecida. O término era de uma sutileza tão complicada, tão minimalista que podia ser bem árida. O jogo acabava quando tinha que acabar, mas perceber um fim fazia também parte dele.


Mélia e Lúcia sabiam disso.  Ignorar era preciso. Até o dia em que Mélia levou Lúcia até a mesma estação de metrô que se conheceram e juntas desceram até a plataforma de embarque sentido Zona Norte. Lúcia olhou para Mélia e sorriu. Esperaram o metrô para a Saens Peña que só passou depois de cinco rumo a Pavuna. Quando o letreiro informou que o próximo era finalmente o que elas queriam, Mélia comemorou. Foram  caminhando para a parte do meio da plataforma. O barulho do trem ia tomando conta da estação enquanto ele ia se aproximando. As luzes no fim da galeria iam surgindo. Lucia sorriu mais uma vez. E Mélia a empurrou forte nos trilhos antes que pudesse perceber que era mais um metrô sentido Pavuna. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dentro d'água

Você se afogava naquele rio de agonia. Eu assistia tudo da margem. me atirei na água para tentar te ajudar. Meu maior erro. Eu não sabia nadar. Você no desespero se debatia e me empurrava para o fundo. No fim, você continuava a gritar e eu aos poucos afundava até sumir. Você morreu. E eu agora tento voltar a superfície. Você morreu. E seu corpo continua apodrecendo na beira do rio. Os abutres já comem sua carne. Se deliciam do seu sabor. Eu já não tenho fôlego para me manter submerso, tampouco forças para subir. Tenho medo que os carniceiros comam seu coração antes que eu possa emergir.

domingo, 17 de novembro de 2013

Lavalle y Polidoro

Ele caminhava perdido por aquelas esquinas que insistiam em não se cruzar. Aquela vodka que fazia todas as conexões cerebrais fluírem em zig-zag. Ele parou o táxi quando viu o Obelisco. Riu das notas velhas que faziam o taxista feliz. Foi e voltou. Voltou e foi. Desceu menos de dez degraus e deve ter pagado 20 pesos. Ignorou aquele gordo horroroso que queria se prostituir sem nada oferecer. Sala 1 e aqueles olhos tristes tão lindos que era suficientes para fazer valer toda aquela volta ao lado ocidental do rio da Prata. Precisava ter certeza. Sala 2. Nada! Sala 3. Nada tampoco! Sala 4? Hay? É possível que não! Ele te seguia e você o atraia com seu corpo, sua energia e sua vontade de ganhar a noite.

Hola! Deve ter dito isso. Menos de um minuto já estava com sua língua dentro da boca dele. Camisa e meias listradas. Rayadas? Fez ele rir. Tocou todo seu corpo. Eram seres exóticos em meio àquele lugar repleto de peles mal ajeitadas. Eram lindos. Eram especiais. Aquele piso sujo. Aquele cheiro horrível. Eram ridículos por ver beleza no meio do nada. Quando ele olhou para ele, ele sabia que ele era él! Não tinha dúvidas que queria aqueles olhos que brilhavam na escuridão. Aqueles olhos que mostrariam o prazer, o carinho, o amor. É verdade que ele não tinha noção de tudo isso. Mas, ele era ele e isso bastava.

Ele falava espanhol. Ele tinha a fluência que a vodka presenteia os poliglotas. Ele ria com as coisas mais loucas que ele dizia. Ele só via o brilho dos olhos tristes. Se beijaram naquela parede suja. Viraram uma atração circense em meio a tanta sujeira. Estavam ali para redimir tudo aquilo que a hipocrisia insistia em classificar. Óbvio que foram atrás de um gozo rápido e anônimo.  Mas os planos deram errado. Ficaram além do tempo. Falaram além da conta e se apaixonaram.  Precisaram de meses para saber disso. 

Falaram, hablaram, se beijaram, se chuparam e fizeram cócegas na barriga um do outro, no ego alheio. O sol de guerra já estava a postos. Ele o levou até a Uriburu. Só tinha que pedir para o taxista seguir em frente. Sem medo. Trocaram os telefones. E nas primeiras mensagens tudo já indicava que tudo era ainda o começo de tudo. Chegou suspirando no elevador arcaico e se jogou naquele chão que lhe servia de cama como se fosse o maior king size da Argentina. Estava eufórico que deveria no sangue ter mais adrenalina que glóbulos brancos. Tinha sorte.  Na primeira noite, encontrou o amor da vida e na segunda, ouviria o canto da sereia do ártico. 

Queria contar para todo mundo. E contou. Poderia ser um iludido, mas até segunda ordem tinha conhecido “el nene”. Se sentia a prostituta amadora que acredita que aquele cliente mais carinhoso a ia tirar da zona de baixo meretrício. Estava liberta do cafetão da incerteza. Ele só pensou nele. Ele só queria falar com ele. Ele transou com outros pensando nele. E ainda teve a coragem de contar suas angústias para o outro que apenas queria que ele metesse novamente dentro dele seu prazer efêmero e seu gozo espesso. Ele era cruel. Ele ignorava o tesão alheio. Gastava todas suas notas surradas em garrafinhas de Absolut y energizante. O outro perdeu as esperanças e se foi. Ele só queria ele.  Ele não queria mais ninguém. Um hemisfério interferia no outro.

Eles se desencontraram. Ele ousou. Ele cruzou a linha do bom senso. Ele estava certo. Eles se queriam e não tinham por que não estarem juntos. Mas, Buenos Aires é longe de Rosário. Pensou em pegar um avião e conhecer mais uma cidade argentina. Não tinha dirección! Eram sms espaçados. Ele o convidou e ele aceitou. Um trânsito infernal. Uma incerteza. Tudo errado. E aqueles olhos tristes sentados esperando ele. “Qué raro es eso”, ele se limitou a dizer. Eles tinham pouco tempo. Entre o check in e a imigração, pouco sobrava. Uma foto clandestina e sem foco. Um pedido de privacidade. El Río de La Plata ao fundo. Eles se beijaram. Eles se beijaram. E aquele beijo durou um ano. Ele ainda sente o gosto daquele beijo. É doce, mas também é salgado. É um beijo salobro. Mistura da doçura e imensidão do rio com salmoura e violência do oceano. É um beijo triste com o sabor de um amor que não existe mais, mas que se moldou eterno e sem substituto. Um beijo de espera. Um beijo de paciência. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Uma mensagem após o sinal

É claro que essa “carta” poderia vir naquelas noites de vodka e em que a pele fica aveludada assim como os sentimentos. Eu queria muito que fosse assim, mas são sete e pouco da madrugada e eu devo ter dormido só umas três. A gente voltava juntos e você disse que sempre que passa em frente ao supermercado grande lembra dele. Eu disse que também lembrava. Você contou que naquele dia tinha gostado muito dele. Mas, eu não falei que nunca deixei de gostar. Claro que desviei o assunto dizendo que ainda queria minha vingancinha boba e emendei com um monte de bobagens. A verdade que com o tempo, as coisas ruins foram ficando pequenas e eu fiquei repleto de lembranças felizes mescladas com frustrações. Óbvio que também lembro de nós comprando qualquer coisa, de vocês sendo apresentados na fila do caixa e ele com o carinho laranja pela General Polidoro. Eu me lembro de todos os dias dele aqui no Rio, dos meus lá, do primeiro encontro e do último não-encontro. 

Acho que lembrar nem é o verbo. De fato, não esqueço. Não é aquela memória que estava lá no fundo do mente e vem. É um filme em looping que é interrompido pela vida que segue diariamente. É assim quando me deito e recordo dele na minha cama, mesmo ainda quente e úmida depois de mais uma visita furtiva.  Ou quando passo por um lugar bonito ou vejo alguma peça de design diferente. Só precisei de um ano. Cinco meses já se passaram e sempre me vejo com essas “recaídas”. Eu imagino que nada de que estou te falando seja uma surpresa. E eu já estava bem disposto a reiniciar o contato. Não, não em busca de um retorno onde paramos. Seria lindo, mas seria falso. Queria voltar a ter as conversas divertidas e longas. Queria poder olhar para ele que entendo melhor o que a gente passou e que hoje teria sido mais suave. Eu estava bem disposto a isso. Talvez, eu esperasse até depois de amanhã. É uma idéia que eu estava amadurecendo. Eu ia precisar de uma deixa boa. Nossos aniversários já passaram e não temos tanto assunto.

***

Não tem Cristo hoje. As nuvens o cobrem todo e só um pedacinho da pedra está exposto. Eu, me sentindo em 1999, ouvindo Joinning You – versão mais lenta que só tocava no rádio - enquanto te escrevo. Eu, me sentindo um trapo. Sabe quando a gente tem certeza de uma coisa ruim e fica com aquela esperança até o fim de estar errado? Então, eu estava certo. Bem certo. Dardo bem no meio. 100 pontos. É claro que eu poderia ter ficado com a dúvida, mas ser outra pessoa pode ser mais complicado do que dizer que me chamo Henrique para um desconhecido. Um álbum cheio de fotos de um amigo em comum. Ele reaparece com aquela mesma carinha e olhar triste. Reparo e vejo por debaixo do cardigan uma camisa que eu foi minha e eu dei presente. Seta da direita. Mais uma foto. Passo. Agora, ele sozinho tirando uma foto com o celular – que já não é o mesmo e provavelmente tem agenda nova. Next picture. Gente aleatória. 

Next. Next. Next . Pronto!  O louco aqui não estava errado – e nem um pouco feliz por isso. Os melhores amigos na mesa e a nova conquista sendo apresentada – a legenda dizia isso, caso eu fosse um pouco lerdo. Todos lá, comendo a sobremesa que eu nunca pedia e conversando no momento que eu já teria pedido a conta. Mas, um detalhe: o cara vestia uma outra camisa que foi minha e que também dei de presente – não a ele. Que merda é essa? Por que aquele garoto estava vestindo aquela blusa? Será que ele sabia a história dela? Eles agora dividem o guarda-roupa?  Não, não me interessa. Mas, não existe o botão off. Mais fotos e agora são do aniversário dele. No ano passado, ele vestia a mesma camisa que o garota usava na foto anterior. Confuso não? E agora, vestia outra camisa que foi minha e... 

Enfim, dois anos seguidos e "eu na festa". A amiga solteirona feliz – ou fingindo, só saberemos a verdade depois de mais um término, o amigão, os dois juntos mais não muito conectados. Não sei se é uma forma de me confortar, mas eu não via uma olhar feliz nele e a camisa... Não acredito que não tenha percebido a coincidência. Mas, nem sempre dá para ter certeza se foi um ato falho ou apenas um cachimbo. E eu, tremi de raiva. E eu, tentei dormir e sonhei com tudo. O farmacêutico avisando que agora ele moravam juntos e eu saindo por Buenos Aires tentando esbarrar um encontro, uma satisfação e sem rumo nenhum. Não era difícil ter dito um sonho ruim – que a medida que te escrevo, esqueço. Já devo ter repetido mil vezes a música. Ela veio na hora quando pensei em te escrever. Colaria os trechos que dizem exatamente o que penso e adaptaria os demais. Mas, sei que já estamos afinados para eu não escrever e você ler mesmo assim. Desenhei. Tentei escrever para você duas vezes. Apaguei. E agora, temos isso, minha longa mensagem após o sinal. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Compact Disc

Foi um play naquele disc-man velho à pilha que ele insistia em usar. Mochila no colo. Sentado no banco e olhando para a janela. O ônibus navalhava a pista central da avenida da praia. O vento invadia tudo pelas janelas abertas. Todos pareciam em transe. Cansaço? “If travel is searching anda home has been found…”.  Eu vi que havia muitos lugares vazios, mas eu quis me sentar ao lado dele. Ele usava um óculos escuros wayfarer azul. Uma blusa xadrez colorida de flanela. Tinha uma barba rala, dessas que não enchem o rosto nunca e quase se parecem com sujeira, mas têm seu charme. Ele não se virou para mim. Continuou sentado olhando aquelas ondas em ressacas que faziam um estrondo quando quebravam na areia fina e branca que naquele dia estava ainda mais alva por conta da luz dos refletores da praia e da lua quase cheia.  “I’m not stopping...”.  Eu ouvia o som vazar baixinho dos seus headfones e via sua mão dançar discretamente no ar. Tinha momentos que eu podia jurar que a gente trocava olhares pelas nossas imagens refletidas na janela.  “...thought that i could organise freedom...”. Seus lábios cantavam quase afônicos. Era um sussurro bem algodoado. Seco, mas macio.

Nossas pernas se tocam nas curvas mais bruscas e nossos braços não se desgrudavam. Eu sentia a manga da sua blusa tocar minha pele. Eu tinha vontade de sentir meus dedos passeando pelo tecido, por suas costas, pelos cachos do seu cabelo. Não sentia necessidade de falar nada e nem que ele me encarasse. Não, eu não tinha vontade de tirar sua roupa e nem de beijar sua boca. Queria abraçá-lo.  Muito forte. Ele repetia compulsivamente a mesma música e eu percebia que ele dava rewind em trechos “I’m hunter. I’m hunting...”.  Por vezes, não deixava a canção terminar antes de repeti-la a exaustão. Tinha medo do skip. Dava para perceber isso. O ônibus deixava para trás outros e carros menores. A cada ultrapassagem, as rajadas de vento eram mais fortes. Eu estava com frio. Ele não se importava. A gola da sua blusa se mexia e ele, estático. Coloquei minha mão em seu ombro e esperei que ele se virasse. “Pode fechar a sua janela? Está chuviscando”. Sem virar para meu lado, ele fechou uns dois centímetros. Já não cantava mais e seus dedos permaneciam imóveis. A luz do ônibus falhou como em piques de eletricidade. Claro. Escuro. Claro. Escuro. Frio. Frio. Frio. Muito frio. Eu não sentia mais ele. Não escutava mais sua música. Ouvi um barulho vindo do teto e pela fresta da ventilação o vi sorrindo. Ele tinha um lindo sorriso que manteve no rosto enquanto escorria de lá de cima como se fosse poeira varrendo o asfalto. E cegando a vista.