sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Possibly Poetry


E ai, eu abri a porta da sala e te encontrei sentado no chão com laptop no colo ouvindo Pagan Poetry e completamente bêbado. E eu vi seus pés se aproximando de mim. Você imóvel e concentrado na música e nos seus dedos que batiam no teclando como se perfurassem um coração pulsante. Meus dedos tentando animar um coração sem vida. Um olhar perdido para dentro do plasma. Meus olhos vendo suas panturrilhas e controlando para não subir para suas coxas. Um sorriso de lua minguante como se estivesse fazendo as mais perversidades que uma madrugada sozinho pode permitir. Eu segura para não abrir meus dentes até meu ouvido por saber que você estava parado na minha frente me olhando. I Love him, I Love him, I Love him! Entendi o recado na hora e achei que deveria sair no mesmo silêncio que entrei. Eu confessava para o mundo o que eu sentia naquele momento, achando que o mundo te contaria esse segredo. Sua cabeça girava em rotações elípticas e seus pensamentos pareciam fugir de você para me longe. Mantinha meu eixo em você e tentava olhar nos seus olhos, mas não tinha coragem. O ritmo da sua mão ia diminuindo como se a qualquer momento o sangue parece jorrar e você não tivesse mais o que fazer. Aqueci minhas falanges para não ter a menor dificuldade de te dissecar até o fim daquela noite. Eu olhando para você. Você olhando para mim. Você fechou os olhos como se quisesse que no abrir deles, eu desaparecesse. Fechei meus olhos querendo que seus cílios se misturassem aos meus. Bati a porta ao sair. Acordei?

sábado, 11 de junho de 2011

Avenida das Américas

Nada além dos dois segundos. A paisagem muda. Tão rápido que nem chega a ser. Apenas no vermelho. Os números chegam a cinco dígitos. Sempre terá alguém que possa pagar. Pista central. Dois sentidos. Sul e Oeste. Freeway. Simonsen. Guanabarra. Square. Riviera. Santander. Garden. Garden. Você pisca o farol. A gente se ouve, mas não se vê. Ayrton Senna. Armando Lombardi.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sobre o sonho

Provavelmente, naquela noite, eu ouvi tudo o que queria e devia escutar, mas estava bêbado o suficiente para não lembrar. Agora, fico sonhando com você. Como se ainda tivéssemos um pedaço de história não vivida. Até pode ser, mas nada garante que seja bom.

Dito isso, chego a conclusão que é melhor esquecer desses sonhos. Assim como eu esqueço daqueles que me deixam imobilizados durante o sono. Um dia (no sentido de marco e não de cronologia, pois foram meses) eu fiquei sem poder me mexer mesmo acordado e de pé. Sua cara safada e seu corpo muito do gostoso não valeram a pena. Anos depois, é a grande certeza que eu tenho. Mas, se um dia assim como no sonho, você ficasse tão perto de mim e tentasse me beijar... Eu não negaria. Fato!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Deitada no sofá, ela dorme

Dorme no sofá da sala. Minha vontade é de sempre levá-la embora comigo. Nem parece que fala gritando. Que sempre resmunga quando acorda. Tem uma inocência que é mais bela que a das crianças. Explico. Ela mantém uma pureza de olhar que quase cinco décadas não conseguiram tirar. Se ela fala baixo, eu quase choro. Ela não sabe lidar com o dor. Não teve a do parto. Não tolera bem as partidas. Sozinha no sofá da sala e com a televisão ligada. Sempre fico tentando imaginar seus sonhos. Às vezes, ela narra trechos enquanto cochila. Antes das seis vai acordar. O ritual é o mesmo todo dia. Vai se levantar e colocar a água para esquentar no fogão. Começa a se arrumar. A água ferve e ela joga o pó de café. Sempre muito pó. Açúcar nem tanto. O coador tem que ser de pano. Ela vai beber apenas metade do que colocou na xícara. Se tiver pão, vai comer também. Etapa final da arrumação. De frente ao espelho vai pentear os cabelos e prendê-los bem rente a cabeça. Pronta. Segue rumo ao trabalho e só volta no fim da tarde.

Todo vez que eu a racionalizo, seguro as lágrimas. Isso, definitivamente, eu não aprendi com ela.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Postais extraviados

Ele não vai te enviar nenhuma carta. Não entendo por que você espera tanto. E você não será a musa de nenhum poema. Nem mesmo de um bilhete num guardanapo de bar. Disso, ele faz papel para fumar um baseado. Ele não vai dizer que te ama. Mesmo que você insista em forçar uma declaração. Talvez, ele nunca olhe para sua cara. De fato, ele já deletou seu telefone do celular e só não te apagou de todas as redes sociais porque ele não tem perfil em nenhuma delas. É provável que ele já tenha esquecido seu endereço. Ele não vai te enviar nenhum cartão postal. Mas, se eu fosse você, esperaria do mesmo jeito.

quinta-feira, 31 de março de 2011

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Estação da Glória

Entre o vão e o trem mora a esperança. Quando ele chegou naquela estação sua cabeça girava com se seus neurônios sambassem ao som de música clássica. Os sinais e cartazes de aviso o confundiam como se estivessem escritos em inglês soviético. Ele não sentia a sua pele. Era um veludo bem grosso que o protegia do calor de mais 50 graus. Gostava dos bancos brancos brilhantes. Esperava. Subia e descia as escadas rolantes. Esperava. Andava pelas plataformas. Cantava. E quando trem chegou. Morreu.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

-/- (título original: negativo, negativo)

Abriu os olhos e não conseguiu tocar no despertador que berrava há pelos 2 horas. Saiu da cama e o chinelo fugiu dos seus pés. Estava sem roupa nehuma. Quando tentou tomar banho, estranhou ao perceber que nenhuma gota de água caia no seu corpo. Ele tinha se transformado em um imã e tudo ao redor estava no mesmo pólo. Logo se acostumou com a situação. Ainda era complicado sair de casa pelado, mas com um tempo ninguém mais reparava. Gostava de saber que nenhum mosquito o picaria nunca mais. Era quase um ser pintado de urânio, só faltava brilhar. Não tinha muito o que reclamar com os benefícios. Difícil era não poder abraçar mais ninguém. Por um momento pensou que se tivesse acordado duas horas mais cedo, sua vida estivesse diferente. Mais atrair tudo em volta também não seria legal.

domingo, 19 de dezembro de 2010

De trás para frente

Se a gente pode, por que não controlar o tempo? Fico pensando que qualquer coisa que eu escrevi seja tão no passado, mas tão no passado que usar uma data errada para publicar não é mais que o certo. Essas linhas, por exemplo, são de janeiro e de 2011. Mas, quem me garante que não são de 2010?

Se eu posso controlar o tempo, não teria porque não o fazer. O próximo passo é apagar o futuro antes mesmo de ele acontecer!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Buuu!

As madrugadas ficaram pequenas demais para tantos fantasmas. E eles perderam o medo da luz do sol. Foi o tempo que iam embora às 6 horas e me deixavam dormir. Hoje usam óculos escuros baratos comprados de algum ladrão. Ainda usam lençóis com furo nos olhos e se movimentam pelo quarto sem nenhuma forma. Há os mais depravados que usam pano transparente e exibem suas partes mais íntimas. Gostam de tirar meu sono com violência. Deixam meus olhos ficarem pesados, meu corpo quente e minha boca seca. Me deito, me cubro e me ajeito nos travesseiros. E eles chegam.

Acendo a luz e eles se escondem dos meus olhos. Ficam cochichando entre si. Dão risadinhas e se calam com respiração bem forte. Sim, eles ainda respiram. Tossem, espirram, espirram... Disfarçam. Fingem que vão embora. Dão tchau e um beijo de cada lado do rosto. Não do meu. Colocam o chapéu e dão meia-volta. Pulam em cima da minha cama, dançam tango na minha mesa jogando livros e papéis pelo quarto e usam minhas roupas como se fossem deles. Apenas uma poderia ser.

Quando se cansam, abrem a janela e somem. Eu fico com o sol forte da manhã, com o barulho dos carros na rua e com o cheiro do almoço sendo feito no apartamento de baixo. Olho no espelho e vejo, agora, um zumbi.

domingo, 31 de outubro de 2010

Ainda sobre coisas inacabadas

Eu do alto de uma arquibancada via você há três anos. Lindo. Eu me via descendo aquelas escadas de dois em dois degraus e pulando os cinco últimos. Agora, eu não pularia nem mesmo uma amarelinha para chegar a você. Até porque ao seu lado a gente sempre saí do céu e para no inferno.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sobre coisas inacabadas

Eu invento longos e complexos diálogos em francês para simular nosso rompimento. Invento as palavras também. Ensaio a entonação das sílabas e as pausas... dramáticas. É tudo muito sussurrado. A culpa é sua que não entende e não a minha que não sei falar. Perco horas criando os olhares e gestos com as mãos. Ando de um lado para o outro, me viro e olho a paisagem na janela. Uma respiração e volto a falar. Embargo a voz e termino. Fecho a janela e me deito. Agora, vou começar a criar nas conversas devassas em espanhol.

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Vi uma foto do seu novo namorado. Gargalhada número um. Vasculhei o álbum da viagem que vocês fizeram. GARGALHADA número dois. Li todas as legendas erradas que ele escreveu. Choro de canto de olho número zero, mas com muito deboche!

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Insisto, mas nunca encontro nenhuma referência a mim nos seus textos. Nem naquele que você publicou no dia do meu aniversário.

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Você nunca vai saber o que é olhar as ondas quebrando no penhasco da Niemeyer e sentir um déjà vu. Com você o Rio não passa de um jamais vu! Mas, sejamos sinceros, você viu coisa demais para quem nasceu numa cidade cujo nome desperta riso.

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O dia que conseguir arrancar todos os dentes da sua boca, deixo de escrever para você!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Talvez fosse agosto

Num canto da casa tudo seria amontoado. Aos poucos, minha mãe ia comprando todos os objetos da decoração. Varias cores de papel crepom, cartolina, bolas de isopor, purpurina, cola, pincel, tinta e canetas hidrocor. Ela também comprava os pequenos brinquedos das lembrancinhas que eram dados em sacos de papel colorido junto com doces. Eu e meu irmão não ganhávamos nenhum deles. Por fim, na estante eram guardadas as muitas latas de leite condensado, os pacotes de trigo, açúcar e chocolate. Muitas latas mesmo. Não, não acabava. Na geladeira ainda tinha banha de porco, camarão, ovos, carne moída e uma pena de galinha.

As cartolinas eram cortadas e viravam convites. O papel crepom frisado era colado a uma bola de isopor com um rosto desenhado. Tudo trabalho de muitas madrugadas. As manhas eram reservadas para o trigo se transformasse em um bolo de vários recheios, ou em pasteis, ou em empadas que também levavam banha, sal, eram preenchidas com camarão, tampadas com massa e besuntadas com gema por uma pena.

Não havia uma só garrafa pet. Era tudo de vidro, no máximo de um litro. Muito barulho de vozes. Um entra e sai de pessoas diferentes que sempre tinha alguma tarefa para executar na cozinha. Quem não tinha nada para fazer, era obrigado a soprar bolas até ficar com a boca branca e os ouvidos zumbidos dos eventuais estouros. Logo a sala virava uma piscina de bexigas azuis e brancas que eram amontoadas em cachos e penduradas na sala.

Já era de noite, mas ainda não havia ninguém arrumado. Era hora dos banhos. Os aniversariantes, os primeiros. Apesar dos três anos de idade, as roupas eram iguais. Só as roupas. E mesmo assim teria um que perguntaria “são gêmeos”. Aos poucos conhecidos e desconhecidos se misturariam aquela decoração de palhaços. Ficariam surpresos que na hora do parabéns ninguém ali estivesse de fato fazendo aniversário.

sábado, 24 de julho de 2010

Vidinha facebook

Nas fotos ninguém tem um sorriso maior que o seu. É daqueles de orelha a orelha. Ninguém é mais feliz no Facebook que você. Suas fotos tem ângulos ousados, enquadramentos instigantes e uma iluminação perfeita. Seus amigos são bonitos, suas roupas são as melhores e suas legendas inteligentes. São viagens fantásticas, trivialidades bem retratadas, intimidades leves. Está tudo lá, separadinho por álbum, data e evento. Nas fotos sua vida é harmônica. Sua casa sempre arrumada. Seu marido não reclama, seu filho não chora e seus pais não incomodam. As contas não vencem e nem atrasam. O dinheiro sempre sobra e é dispensável quando falta. Faz a falência ser charmosa. Nas suas fotos, o Brasil tem sol 370 dias ao ano em um longo verão de dias de 24 horas de luz. A Europa é na esquina e a Argentina no meio do quarteirão – duas casas depois está o Chile. O mar está sempre calmo, a praia vazia e os bares badalados lotados com sua mesa cativa garantida. Mas, na hora que você faz logout... Tudo fica escuro assim como a tela do seu computador.