sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Ventilador na mesa


Eu senti uma vibração na mesa. Era o ventilador. Girando de um lado para outro. Tremendo tudo. Desliguei. Estava me desconcentrando demais. A luminária também treme. A culpa é dos meus dedos batendo no teclado. Poderia ser da minha mente reverberando cada uma das inquietações que mais uma vez vão me impedir de dormir antes do sol nascer. Verão no Rio. Antes das 5 é já começa a ficar tudo clareado. Meus pensamentos, não. Eu estipulei que escreveria um texto essa semana. E seguiria assim. No final, um livro de contos. Ou de crônicas. Ou ensaios. Eis um post para meu blog que eu não atualizava desde 2024.
 

Não lembro como pensei em nele exatamente. Acho que estava pensando se começava a publicar no substack (ou no médium). Vim no blog e achei o tal texto de 2024. Publicado no último dia daquele ano. Todo desconfigurado. Eu deveria assim estar quando escrevi e mais ainda quando publiquei. Teve gente que viu. Ninguém comentou. Seria bom se as pessoas agissem assim na vida fora das telas. Viu, mas não comentou. 

Não há um tema claro nesse texto. Talvez, o sono apareça antes de eu sentir que o texto chegou ao final. Vou dormir mais aliviado por ter um risco na minha lista de to do e com o bónus de ter atualizado o blog. Eu fiz isso publicando parte de um livro que eu imaginava estar escrevendo, porém, como foi escrito em 2025, alterei a data de publicação para tal ano - assim, quem vasculhar os arquivos do Esfera dos Intocáveis pode se iludir que eu não abandonei tudo por completo. Eu escavei esse arquivo e, também, dei uma olhada nos blogs do Betão e da Kênia. Eles escrevem melhor do que eu. Reli os comentários que deixaram para mim. A maioria da Raquel. Ninguém (deles) escreve mais (para ninguém) e reler aqueles textos foi como rever fotografias antigas - aliás, faz anos que olho as minhas em papel ou enterradas em backups antigos. Que bom que eles não apagaram nada. 

Eu também não apago nada. Isso pode ser um problema. Vou acumulando memórias. É pesado. É sufocante. É agridoce. É um colchão de segurança. É um refúgio no caos. É o que me ajuda a entender porque estou mais uma vez sentado diante de um computador escrevendo de madrugada da mesma maneira que eu fazia no meu quarto em Laranjeiras, Serra, Espírito Santo. É o mesmo silêncio. É a mesma solidão. Mentira. É ainda mais solitário. Eu não tenho o meu irmão fechado no quarto ao lado acordado vivendo o mundo dele. Não tenho a minha mãe dormindo de porta aberta e as vezes falando. A moto do vigilante não passa, mas tenho alguns transeuntes voltando do Treme treme ou algum mendigo causando ou o metrô balançando a minha janela alertando que já já o dia começa de novo. Eu vou tentar dormir, mas tudo que acabei de dizer vai começar brotar como um feijão num pedaço algodão molhado. 


Nenhum comentário: