sábado, 5 de abril de 2014

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Jogo

Ela pensava que era um jogo sem regras. Achava interessante a idéia jogar por jogar e ainda ganhar no final. Achava que tudo seria como uma grande corrida em um descampado plano ao vento. Se imaginava de cabelos soltos e deixando tudo fluir de maneira livre. A graça e o objetivo do jogo era esse: liberdade. Quando o que se poderia chamar de partida começou, ela percebeu que havia regras. Muitas regras. E que elas iam surgindo e mudando à medida que ela jogava. Não jogava sozinha, obviamente. Ela percebeu que a liberdade até poderia existir mas no lugar de uma planície, um misto terreno arenoso acidentado. Não era possível sair correndo ao acaso. Era preciso entender cada nova regra e a sua conseqüência. Assim, tudo foi sendo feito.

Conheceu aquela linda uruguaia na saída do metrô do Flamengo. Uma espécie de esbarrão. Lucia preferia dizer que elas se chocaram. Como duas placas tectônicas. Os efeitos ainda estão sendo medidos, mas por dias elas sentiram um terremoto dentro de seus peitos. Lucia falava um português tão peculiar que sempre chamava a atenção dos interlocutores. Não era uma questão de sotaque. Era a construção das frases e a velocidade com que pronunciava  as palavras. Representava no tempo o sentido do que queria dizer. Para Lúcia, tinha lógica, é claro. E depois de uma semana juntas, Mélia passou a falar do mesmo jeito.

O primeiro passo de Mélia, durante o jogo, foi olhar para os olhos de Lúcia de uma maneira que em instantes ela estivesse percorrendo a mente da outra. Lúcia deveria apenas se manter calada e jamais fugir o olhar. Essa talvez tenha sido a primeira regra a ser criada.  Mélia caminhava pelos pensamentos da uruguaia com o cuidado de não derrubar nada. Não que fosse proibido o passeio lá dentro, entretanto Mélia deveria sair da mesma maneira que entrou. Quando fechou os olhos e cortou a conexão com Lúcia, conheceu uma nova regra: deveria agir como se não tivesse visto nada e como se não soubesse dos traumas, medos e, sobretudo as mentiras de Lúcia. As descobertas não eram para ser esquecidas, mas deveria ser ignoradas como um bibelô barato que insiste em enfeiar a sala de estar. Por algum motivo ele precisa ficar ali na estante, gostando dele ou não.

Mélia era carioca. Não achava que isso determinava nada na sua vida além de um gentílico a ser preenchido em alguma ficha cadastral. Mesmo antes de conhecer Lúcia, ela não chiava nos esses e nos xis. O erre era sutil, porém com uma pronúncia arredondada com uma bola de bilhar. Seu cabelo parecia estar sempre impecável, como se ela gastasse horas o deixando daquela maneira. E ela realmente gastava. Dormindo. Ao acordar, tudo pronto e ela só se preocuparia em escovar os dentes. Tão brancos.

A intensidade que Lúcia iria morder Mélia era ilimitada. Se os caninos encontrassem com os ossos da carioca era prudente não avançar, mas ela poderia seguir se tivesse forças. Mélia poderia gritar desde que houvesse oscilação no tom e os intervalos de respiração não fossem mais fortes e demorados que meio centímetro de mordida. O tempo era medido com uma régua.  Antes que possa parecer, não era um joguete sádico. Primeiro porque não trabalhavam com o conceito de dor – talvez nem com o de prazer – e porque as duas tinham pavor de couro, máscaras ou chicotes (por certo, tinham uma visão primaria da prática sado-maso).

Descrever as regras, consequências e as implicações do jogo seria uma bobagem. Seria cansativo e seguramente ao fim da listagem, o jogo teria outras novas. Seria fácil classificar com um jogo que muda toda a hora. Mas, nem hora ele tinha e na impossibilidade de fixação, havia a impossibilidade de se falar em mudança. Uma vez iniciado, não tinha volta – a última regra a ser conhecida. O término era de uma sutileza tão complicada, tão minimalista que podia ser bem árida. O jogo acabava quando tinha que acabar, mas perceber um fim fazia também parte dele.


Mélia e Lúcia sabiam disso.  Ignorar era preciso. Até o dia em que Mélia levou Lúcia até a mesma estação de metrô que se conheceram e juntas desceram até a plataforma de embarque sentido Zona Norte. Lúcia olhou para Mélia e sorriu. Esperaram o metrô para a Saens Peña que só passou depois de cinco rumo a Pavuna. Quando o letreiro informou que o próximo era finalmente o que elas queriam, Mélia comemorou. Foram  caminhando para a parte do meio da plataforma. O barulho do trem ia tomando conta da estação enquanto ele ia se aproximando. As luzes no fim da galeria iam surgindo. Lucia sorriu mais uma vez. E Mélia a empurrou forte nos trilhos antes que pudesse perceber que era mais um metrô sentido Pavuna. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Dentro d'água

Você se afogava naquele rio de agonia. Eu assistia tudo da margem. me atirei na água para tentar te ajudar. Meu maior erro. Eu não sabia nadar. Você no desespero se debatia e me empurrava para o fundo. No fim, você continuava a gritar e eu aos poucos afundava até sumir. Você morreu. E eu agora tento voltar a superfície. Você morreu. E seu corpo continua apodrecendo na beira do rio. Os abutres já comem sua carne. Se deliciam do seu sabor. Eu já não tenho fôlego para me manter submerso, tampouco forças para subir. Tenho medo que os carniceiros comam seu coração antes que eu possa emergir.

domingo, 17 de novembro de 2013

Lavalle y Polidoro

Ele caminhava perdido por aquelas esquinas que insistiam em não se cruzar. Aquela vodka que fazia todas as conexões cerebrais fluírem em zig-zag. Ele parou o táxi quando viu o Obelisco. Riu das notas velhas que faziam o taxista feliz. Foi e voltou. Voltou e foi. Desceu menos de dez degraus e deve ter pagado 20 pesos. Ignorou aquele gordo horroroso que queria se prostituir sem nada oferecer. Sala 1 e aqueles olhos tristes tão lindos que era suficientes para fazer valer toda aquela volta ao lado ocidental do rio da Prata. Precisava ter certeza. Sala 2. Nada! Sala 3. Nada tampoco! Sala 4? Hay? É possível que não! Ele te seguia e você o atraia com seu corpo, sua energia e sua vontade de ganhar a noite.

Hola! Deve ter dito isso. Menos de um minuto já estava com sua língua dentro da boca dele. Camisa e meias listradas. Rayadas? Fez ele rir. Tocou todo seu corpo. Eram seres exóticos em meio àquele lugar repleto de peles mal ajeitadas. Eram lindos. Eram especiais. Aquele piso sujo. Aquele cheiro horrível. Eram ridículos por ver beleza no meio do nada. Quando ele olhou para ele, ele sabia que ele era él! Não tinha dúvidas que queria aqueles olhos que brilhavam na escuridão. Aqueles olhos que mostrariam o prazer, o carinho, o amor. É verdade que ele não tinha noção de tudo isso. Mas, ele era ele e isso bastava.

Ele falava espanhol. Ele tinha a fluência que a vodka presenteia os poliglotas. Ele ria com as coisas mais loucas que ele dizia. Ele só via o brilho dos olhos tristes. Se beijaram naquela parede suja. Viraram uma atração circense em meio a tanta sujeira. Estavam ali para redimir tudo aquilo que a hipocrisia insistia em classificar. Óbvio que foram atrás de um gozo rápido e anônimo.  Mas os planos deram errado. Ficaram além do tempo. Falaram além da conta e se apaixonaram.  Precisaram de meses para saber disso. 

Falaram, hablaram, se beijaram, se chuparam e fizeram cócegas na barriga um do outro, no ego alheio. O sol de guerra já estava a postos. Ele o levou até a Uriburu. Só tinha que pedir para o taxista seguir em frente. Sem medo. Trocaram os telefones. E nas primeiras mensagens tudo já indicava que tudo era ainda o começo de tudo. Chegou suspirando no elevador arcaico e se jogou naquele chão que lhe servia de cama como se fosse o maior king size da Argentina. Estava eufórico que deveria no sangue ter mais adrenalina que glóbulos brancos. Tinha sorte.  Na primeira noite, encontrou o amor da vida e na segunda, ouviria o canto da sereia do ártico. 

Queria contar para todo mundo. E contou. Poderia ser um iludido, mas até segunda ordem tinha conhecido “el nene”. Se sentia a prostituta amadora que acredita que aquele cliente mais carinhoso a ia tirar da zona de baixo meretrício. Estava liberta do cafetão da incerteza. Ele só pensou nele. Ele só queria falar com ele. Ele transou com outros pensando nele. E ainda teve a coragem de contar suas angústias para o outro que apenas queria que ele metesse novamente dentro dele seu prazer efêmero e seu gozo espesso. Ele era cruel. Ele ignorava o tesão alheio. Gastava todas suas notas surradas em garrafinhas de Absolut y energizante. O outro perdeu as esperanças e se foi. Ele só queria ele.  Ele não queria mais ninguém. Um hemisfério interferia no outro.

Eles se desencontraram. Ele ousou. Ele cruzou a linha do bom senso. Ele estava certo. Eles se queriam e não tinham por que não estarem juntos. Mas, Buenos Aires é longe de Rosário. Pensou em pegar um avião e conhecer mais uma cidade argentina. Não tinha dirección! Eram sms espaçados. Ele o convidou e ele aceitou. Um trânsito infernal. Uma incerteza. Tudo errado. E aqueles olhos tristes sentados esperando ele. “Qué raro es eso”, ele se limitou a dizer. Eles tinham pouco tempo. Entre o check in e a imigração, pouco sobrava. Uma foto clandestina e sem foco. Um pedido de privacidade. El Río de La Plata ao fundo. Eles se beijaram. Eles se beijaram. E aquele beijo durou um ano. Ele ainda sente o gosto daquele beijo. É doce, mas também é salgado. É um beijo salobro. Mistura da doçura e imensidão do rio com salmoura e violência do oceano. É um beijo triste com o sabor de um amor que não existe mais, mas que se moldou eterno e sem substituto. Um beijo de espera. Um beijo de paciência. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Uma mensagem após o sinal

É claro que essa “carta” poderia vir naquelas noites de vodka e em que a pele fica aveludada assim como os sentimentos. Eu queria muito que fosse assim, mas são sete e pouco da madrugada e eu devo ter dormido só umas três. A gente voltava juntos e você disse que sempre que passa em frente ao supermercado grande lembra dele. Eu disse que também lembrava. Você contou que naquele dia tinha gostado muito dele. Mas, eu não falei que nunca deixei de gostar. Claro que desviei o assunto dizendo que ainda queria minha vingancinha boba e emendei com um monte de bobagens. A verdade que com o tempo, as coisas ruins foram ficando pequenas e eu fiquei repleto de lembranças felizes mescladas com frustrações. Óbvio que também lembro de nós comprando qualquer coisa, de vocês sendo apresentados na fila do caixa e ele com o carinho laranja pela General Polidoro. Eu me lembro de todos os dias dele aqui no Rio, dos meus lá, do primeiro encontro e do último não-encontro. 

Acho que lembrar nem é o verbo. De fato, não esqueço. Não é aquela memória que estava lá no fundo do mente e vem. É um filme em looping que é interrompido pela vida que segue diariamente. É assim quando me deito e recordo dele na minha cama, mesmo ainda quente e úmida depois de mais uma visita furtiva.  Ou quando passo por um lugar bonito ou vejo alguma peça de design diferente. Só precisei de um ano. Cinco meses já se passaram e sempre me vejo com essas “recaídas”. Eu imagino que nada de que estou te falando seja uma surpresa. E eu já estava bem disposto a reiniciar o contato. Não, não em busca de um retorno onde paramos. Seria lindo, mas seria falso. Queria voltar a ter as conversas divertidas e longas. Queria poder olhar para ele que entendo melhor o que a gente passou e que hoje teria sido mais suave. Eu estava bem disposto a isso. Talvez, eu esperasse até depois de amanhã. É uma idéia que eu estava amadurecendo. Eu ia precisar de uma deixa boa. Nossos aniversários já passaram e não temos tanto assunto.

***

Não tem Cristo hoje. As nuvens o cobrem todo e só um pedacinho da pedra está exposto. Eu, me sentindo em 1999, ouvindo Joinning You – versão mais lenta que só tocava no rádio - enquanto te escrevo. Eu, me sentindo um trapo. Sabe quando a gente tem certeza de uma coisa ruim e fica com aquela esperança até o fim de estar errado? Então, eu estava certo. Bem certo. Dardo bem no meio. 100 pontos. É claro que eu poderia ter ficado com a dúvida, mas ser outra pessoa pode ser mais complicado do que dizer que me chamo Henrique para um desconhecido. Um álbum cheio de fotos de um amigo em comum. Ele reaparece com aquela mesma carinha e olhar triste. Reparo e vejo por debaixo do cardigan uma camisa que eu foi minha e eu dei presente. Seta da direita. Mais uma foto. Passo. Agora, ele sozinho tirando uma foto com o celular – que já não é o mesmo e provavelmente tem agenda nova. Next picture. Gente aleatória. 

Next. Next. Next . Pronto!  O louco aqui não estava errado – e nem um pouco feliz por isso. Os melhores amigos na mesa e a nova conquista sendo apresentada – a legenda dizia isso, caso eu fosse um pouco lerdo. Todos lá, comendo a sobremesa que eu nunca pedia e conversando no momento que eu já teria pedido a conta. Mas, um detalhe: o cara vestia uma outra camisa que foi minha e que também dei de presente – não a ele. Que merda é essa? Por que aquele garoto estava vestindo aquela blusa? Será que ele sabia a história dela? Eles agora dividem o guarda-roupa?  Não, não me interessa. Mas, não existe o botão off. Mais fotos e agora são do aniversário dele. No ano passado, ele vestia a mesma camisa que o garota usava na foto anterior. Confuso não? E agora, vestia outra camisa que foi minha e... 

Enfim, dois anos seguidos e "eu na festa". A amiga solteirona feliz – ou fingindo, só saberemos a verdade depois de mais um término, o amigão, os dois juntos mais não muito conectados. Não sei se é uma forma de me confortar, mas eu não via uma olhar feliz nele e a camisa... Não acredito que não tenha percebido a coincidência. Mas, nem sempre dá para ter certeza se foi um ato falho ou apenas um cachimbo. E eu, tremi de raiva. E eu, tentei dormir e sonhei com tudo. O farmacêutico avisando que agora ele moravam juntos e eu saindo por Buenos Aires tentando esbarrar um encontro, uma satisfação e sem rumo nenhum. Não era difícil ter dito um sonho ruim – que a medida que te escrevo, esqueço. Já devo ter repetido mil vezes a música. Ela veio na hora quando pensei em te escrever. Colaria os trechos que dizem exatamente o que penso e adaptaria os demais. Mas, sei que já estamos afinados para eu não escrever e você ler mesmo assim. Desenhei. Tentei escrever para você duas vezes. Apaguei. E agora, temos isso, minha longa mensagem após o sinal. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Compact Disc

Foi um play naquele disc-man velho à pilha que ele insistia em usar. Mochila no colo. Sentado no banco e olhando para a janela. O ônibus navalhava a pista central da avenida da praia. O vento invadia tudo pelas janelas abertas. Todos pareciam em transe. Cansaço? “If travel is searching anda home has been found…”.  Eu vi que havia muitos lugares vazios, mas eu quis me sentar ao lado dele. Ele usava um óculos escuros wayfarer azul. Uma blusa xadrez colorida de flanela. Tinha uma barba rala, dessas que não enchem o rosto nunca e quase se parecem com sujeira, mas têm seu charme. Ele não se virou para mim. Continuou sentado olhando aquelas ondas em ressacas que faziam um estrondo quando quebravam na areia fina e branca que naquele dia estava ainda mais alva por conta da luz dos refletores da praia e da lua quase cheia.  “I’m not stopping...”.  Eu ouvia o som vazar baixinho dos seus headfones e via sua mão dançar discretamente no ar. Tinha momentos que eu podia jurar que a gente trocava olhares pelas nossas imagens refletidas na janela.  “...thought that i could organise freedom...”. Seus lábios cantavam quase afônicos. Era um sussurro bem algodoado. Seco, mas macio.

Nossas pernas se tocam nas curvas mais bruscas e nossos braços não se desgrudavam. Eu sentia a manga da sua blusa tocar minha pele. Eu tinha vontade de sentir meus dedos passeando pelo tecido, por suas costas, pelos cachos do seu cabelo. Não sentia necessidade de falar nada e nem que ele me encarasse. Não, eu não tinha vontade de tirar sua roupa e nem de beijar sua boca. Queria abraçá-lo.  Muito forte. Ele repetia compulsivamente a mesma música e eu percebia que ele dava rewind em trechos “I’m hunter. I’m hunting...”.  Por vezes, não deixava a canção terminar antes de repeti-la a exaustão. Tinha medo do skip. Dava para perceber isso. O ônibus deixava para trás outros e carros menores. A cada ultrapassagem, as rajadas de vento eram mais fortes. Eu estava com frio. Ele não se importava. A gola da sua blusa se mexia e ele, estático. Coloquei minha mão em seu ombro e esperei que ele se virasse. “Pode fechar a sua janela? Está chuviscando”. Sem virar para meu lado, ele fechou uns dois centímetros. Já não cantava mais e seus dedos permaneciam imóveis. A luz do ônibus falhou como em piques de eletricidade. Claro. Escuro. Claro. Escuro. Frio. Frio. Frio. Muito frio. Eu não sentia mais ele. Não escutava mais sua música. Ouvi um barulho vindo do teto e pela fresta da ventilação o vi sorrindo. Ele tinha um lindo sorriso que manteve no rosto enquanto escorria de lá de cima como se fosse poeira varrendo o asfalto. E cegando a vista.  

terça-feira, 30 de julho de 2013

Daquilo que não será

Aquele barulho da chuva caindo no seu teto transparente. Cocegas na minha barriga. Sorriso depois de escutar minhas brincadeiras irônicas. Seu olhar me vendo tomando vodka. A brilhosa disposição matinal.  El acento. Los besos en el cuello. La risa. El Río. O Rio de Janeiro. Las milanesas. As surpresas. Las surprisas. O guaraná.  Aquelas conversas sem hora para terminar ou até que a conexão mala nos separe. Los mensajitos por whatsapp. A pronúncia de “Big Mac”. Aquele olhar melancólico. Pernas enroscadas debaixo de um cobertor esperando o calor do aquecedor se juntar ao nosso. Os banhos quentes sem medo do reservatório esvaziar. As fugas da água gelada proposital. Botafogo. Vista para o Cristo da cama. San Telmo. Eu e Vos. Você y Yo. Nem Björk. Muito menos Morrissey. Nem Galeão ou Ezeiza. Sem beso no portão de embarque do Aeroparque.  Fin de reclamos. Fin de amor. Fin de los reclamos de amor o fin del amor de reclamos. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O sofá vermelho

Está tudo bem diferente desde a última vez que você sentou nesse sofá. É claro que ainda temos a vista para cozinha e para a sacada da sala. Mas, as flores e plantas da horta morreram. Na verdade, ainda tem um pé de alecrim capenga, um vasinho de planta doado e uma muda não identificada que crescem mesmo sem ser regada. Quase todos os quadros são novos, mas não combinam muito. Outros tantos esperam um prego na parede para serem pendurados. Há ainda aqueles que esperam ser emoldurados. Falando em parede, uma delas agora é vermelha - ou bordô, como dizem pessoas que sabem distinguir paletas de cores.  Resolvi colocar a mesa mais para o centro e agora volto a fazer uma das minhas artes em seu tampo. Pode ser que fique bonito.

Aquela luminária vermelha agora fica em um lugar novo ao lado do sofá e onde ela ficava, agora está a televisão.  A bicicleta continua sem lugar e destoa de tudo. Não que a mesa de centro combine com algum móvel ou ainda, não que algum móvel combine com outro. Hoje, faz um silêncio muito grande. De vez em quando, ouço os gritos de uns garotos que ficam na pracinha ou de gatos no cio. De noite, não tem nenhuma criança e o balanço não range. Vou te falar que acho que sofá já não está mais tão vermelho como naquela foto em que você está nele segurando um taça de vinho e escutando conversas que você não conseguia entender. Na fotografia, a cor era bem mais vibrante e quase se fundia com a sua camisa que também era vermelha. Pouco a pouco sinto ele vai desbotando e ficando empalidado como aquilo que a gente chamava de amor.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Calle Humberto Primo


Porta pesada. Corredor escuro. Tem a escada de mármore branca. Tem o elevador preto. Abre, abre, fecha, fecha. Aperto o quatro. Abre, abre, fecha, fecha. Se vira a direita, temos o 30. Aquecedor com duas lâmpadas queimadas, mas que não deixa congelar. A banheira antiga com água rala. Chão de pastilhas. As duas poltronas, a mesinha linda de centro e uma luminária. Tem uma escada, mas você pode flutuar. Lado direito, abajur. Lado esquerdo, janela. Dizem que lá fora faz muito frio. Nessa cama, muito calor. Se vira a esquerda, o 29. Porta de aço fechada que não abre, nunca abriu e nem... luz acesa do lado dentro por trás do vidro frisado. Sim, aqui fora faz muito frio.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

10 anos


Um dia, eu sentei em uma salinha fria com vários computadores desligados e comecei a escrever. Não tinha muito sentido e eu só queria que qualquer pessoa pudesse ler aquilo que eu pensava por mais que fosse tudo uma pequena piada interna. Eu escolhi o melhor template com muito cuidado e nem por isso acertei.  Falei para os amigos e por algumas semanas levei tudo a sério. Me achava “ligado” e se tivesse um cartão de visita, aquela informação lá estaria. Não faço idéia de quantas vezes eu mudei desde então. Vagamente sei de tudo que aconteceu. E sempre vem uma saudade de diversas épocas que aqueles textos e comentários me remetem. E ai, 10 anos depois, vejo que posso não ter saído do lugar, mas já dei muitas voltas no meu próprio eixo e nunca vi a mesma coisa 360 graus depois. Se tudo tem seu fim, ainda não sei quando isso aqui chegará. Mas, eu vejo os olhos e sinto o mesmo cheiro e meus pêlos ainda estão ouriçados. Eu mudei muitas vezes, mas minha pele ainda absorve tudo que pode em minha volta e eu tento ruminar tudo até que no final tenha algo novo.  

sexta-feira, 29 de março de 2013

A flor de estrada

Cortando o interior da Bahia. Uma chuva bem rala na estrada. Os vidros do ônibus embaçados. No acostamento, bananeiras dançavam com o vento. Começo do dia ou fim da tarde. A mesma luz. A gente era feliz. Eu dormia. Eu acordava. Zzzzonolento.  Não sei de quem foi a idéia de por aquele disco da Gal para tocar. Caixas de som abafadas.  Minha honey baby. Baby. Honey baby. Você passava a mão nos meus cabelos enrolando o dedo mindinho  nos cachos que formavam tímidos. Era gostoso. Mesmo com meus olhos pesados, eu via seu sorriso para mim. Oh minha honey baby. Tão sincero. Por que você era tão carinhosa? O caminho era uma grande reta. A velocidade do ônibus aumentava e as gotas da chuva iam escorrendo pelas janelas. Lágrimas que evaporavam. Eu respirava bem forte para dentro do meu pulmão e tentava não soltar o ar. Achava que se eu fosse segurando, ia sair mais leve. A idéia era flutuar como uma sacola plástica que cai em vendaval. Gira. Gira. Gira. E depois se arrasta pelo chão e fica na beira da estrada. Ou presa em algum galho. Quem sabe.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Última primavera


Tinha um pequeno jardim na entrada de casa. Vasos de vários tamanhos com flores, hortaliças e plantas apenas verdes. Pendurados na parede, no chão ou em cima da mesinha que usava para tomar sol nos dias quentes. Os galhos das plantas maiores se espalhavam por todos os lados e formavam esculturas que mudavam de acordo com o vento e a chuva. Tinha dia que pareciam monstros cheios de tentáculos ramificados. Por vezes, ganhavam a aparência de anjos de presépio. Mas, às vezes apenas secavam. Iam perdendo as folhas e tombando como um corpo sem ossos. Na queda, puxavam as flores dos vasos menores, quebravam as hortaliças e por fim, ficavam cinza. O piso xadrez do chão sumia e quem nele pisasse ouviria o som de creque-creque da madeira seca. Se tivesse descalço, espinhos e farpas entrariam rasgando pela sola do pé. O sangue não jorraria. Seria sugado pelos galhos. Aos poucos uma ou outra folhinha verde começaria a nascer. Os vegetais iriam voltando a ganhar suas formas originais. Quanto mais sangue, mais beleza floral. Até orquídeas selvagens surgiam. Até o fim da transfusão de alma, o pátio ficaria como uma pequena mata fechada. Diversos tons de verde, cores e cores das flores e frutos. Algumas borboletas começavam a chegar. Pássaros pequenos, tartarugas e macacos dourados.  Quando já não restasse mais sangue, tudo já estaria tão exuberante e o sistema estabelecido. Aos poucos a clorofila iria entrar pelas artérias do pé e sumindo pelas pernas até chegar ao coração. Aos pouco o vermelho seria substituído pelo verde. Violetas surgiriam das pontas dos dedos e de dentro da orelha saíram flores de maracujá. Girassóis dos olhos, os pelos virariam alecrins e da boca sairia um último grito. Começava mais uma primavera.

sábado, 21 de julho de 2012

Inverno carioca


São aqueles olhos que te observam antes mesmo de você abrir os seus. Sentado na cama, olhando o cristo, sem camisa e pensando... Não dá para saber. Ainda não os leio. É aquele abraço forte durante a madrugada que continua até o sol da hora em que você se levanta. Beijos no meu pescoço, mãos passeando pelo meu corpo com um tato que não deixa dúvidas das intenções porque essas se concretizam. São palavras doces que queimam o ouvido e melam o peito.  Calado e olhando bem dentro dos meus olhos como se pudesse chegar a qualquer lugar sem menor dificuldade. Deitado na minha cama e de olhos fechados com aquele vento da praia acariciando sua barba como os meus dedos. Era o sabor de maresia nos seus lábios. É aquela blusa laranja esquecida na minha cama. Seu perfume percorrendo minha memória e trazendo felicidade a cada puxada de ar. Caminhando sozinho debaixo da luz fria e entre as cordas pretas. Uma tela cheia de megapixels e uma melancolia sem fim. Por fim, ouço você me gritando em aleman.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

9 anos!

cada vez menos, cada vez mais e lá se vão 9 anos de blog!
longo tempo!
curto espaço!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Possibly Poetry


E ai, eu abri a porta da sala e te encontrei sentado no chão com laptop no colo ouvindo Pagan Poetry e completamente bêbado. E eu vi seus pés se aproximando de mim. Você imóvel e concentrado na música e nos seus dedos que batiam no teclando como se perfurassem um coração pulsante. Meus dedos tentando animar um coração sem vida. Um olhar perdido para dentro do plasma. Meus olhos vendo suas panturrilhas e controlando para não subir para suas coxas. Um sorriso de lua minguante como se estivesse fazendo as mais perversidades que uma madrugada sozinho pode permitir. Eu segurando para não abrir meus dentes até meu ouvido por saber que você estava parado na minha frente me olhando. I Love him, I Love him, I Love him! Entendi o recado na hora e achei que deveria sair no mesmo silêncio que entrei. Eu confessava para o mundo o que eu sentia naquele momento, achando que o mundo te contaria esse segredo. Sua cabeça girava em rotações elípticas e seus pensamentos pareciam fugir de você para bem longe. Mantinha meu eixo em você e tentava olhar nos seus olhos, mas não tinha coragem. O ritmo da sua mão ia diminuindo como se a qualquer momento o sangue fosse jorrar e você não tivesse mais o que fazer. Aqueci minhas falanges para não ter a menor dificuldade de te dissecar até o fim daquela noite. Eu olhando para você. Você olhando para mim. Você fechou os olhos como se quisesse que no abrir deles, eu desaparecesse. Fechei meus olhos querendo que seus cílios se misturassem aos meus. Bati a porta ao sair. Acordei?

sábado, 11 de junho de 2011

Avenida das Américas

Nada além dos dois segundos. A paisagem muda. Tão rápido que nem chega a ser. Apenas no vermelho. Os números chegam a cinco dígitos. Sempre terá alguém que possa pagar. Pista central. Dois sentidos. Sul e Oeste. Freeway. Simonsen. Guanabarra. Square. Riviera. Santander. Garden. Garden. Você pisca o farol. A gente se ouve, mas não se vê. Ayrton Senna. Armando Lombardi.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sobre o sonho

Provavelmente, naquela noite, eu ouvi tudo o que queria e devia escutar, mas estava bêbado o suficiente para não lembrar. Agora, fico sonhando com você. Como se ainda tivéssemos um pedaço de história não vivida. Até pode ser, mas nada garante que seja bom.

Dito isso, chego a conclusão que é melhor esquecer desses sonhos. Assim como eu esqueço daqueles que me deixam imobilizados durante o sono. Um dia (no sentido de marco e não de cronologia, pois foram meses) eu fiquei sem poder me mexer mesmo acordado e de pé. Sua cara safada e seu corpo muito do gostoso não valeram a pena. Anos depois, é a grande certeza que eu tenho. Mas, se um dia assim como no sonho, você ficasse tão perto de mim e tentasse me beijar... Eu não negaria. Fato!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Deitada no sofá, ela dorme

Dorme no sofá da sala. Minha vontade é de sempre levá-la embora comigo. Nem parece que fala gritando. Que sempre resmunga quando acorda. Tem uma inocência que é mais bela que a das crianças. Explico. Ela mantém uma pureza de olhar que quase cinco décadas não conseguiram tirar. Se ela fala baixo, eu quase choro. Ela não sabe lidar com o dor. Não teve a do parto. Não tolera bem as partidas. Sozinha no sofá da sala e com a televisão ligada. Sempre fico tentando imaginar seus sonhos. Às vezes, ela narra trechos enquanto cochila. Antes das seis vai acordar. O ritual é o mesmo todo dia. Vai se levantar e colocar a água para esquentar no fogão. Começa a se arrumar. A água ferve e ela joga o pó de café. Sempre muito pó. Açúcar nem tanto. O coador tem que ser de pano. Ela vai beber apenas metade do que colocou na xícara. Se tiver pão, vai comer também. Etapa final da arrumação. De frente ao espelho vai pentear os cabelos e prendê-los bem rente a cabeça. Pronta. Segue rumo ao trabalho e só volta no fim da tarde.

Todo vez que eu a racionalizo, seguro as lágrimas. Isso, definitivamente, eu não aprendi com ela.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Postais extraviados

Ele não vai te enviar nenhuma carta. Não entendo por que você espera tanto. E você não será a musa de nenhum poema. Nem mesmo de um bilhete num guardanapo de bar. Disso, ele faz papel para fumar um baseado. Ele não vai dizer que te ama. Mesmo que você insista em forçar uma declaração. Talvez, ele nunca olhe para sua cara. De fato, ele já deletou seu telefone do celular e só não te apagou de todas as redes sociais porque ele não tem perfil em nenhuma delas. É provável que ele já tenha esquecido seu endereço. Ele não vai te enviar nenhum cartão postal. Mas, se eu fosse você, esperaria do mesmo jeito.

quinta-feira, 31 de março de 2011

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Estação da Glória

Entre o vão e o trem mora a esperança. Quando ele chegou naquela estação sua cabeça girava com se seus neurônios sambassem ao som de música clássica. Os sinais e cartazes de aviso o confundiam como se estivessem escritos em inglês soviético. Ele não sentia a sua pele. Era um veludo bem grosso que o protegia do calor de mais 50 graus. Gostava dos bancos brancos brilhantes. Esperava. Subia e descia as escadas rolantes. Esperava. Andava pelas plataformas. Cantava. E quando trem chegou. Morreu.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

-/- (título original: negativo, negativo)

Abriu os olhos e não conseguiu tocar no despertador que berrava há pelos 2 horas. Saiu da cama e o chinelo fugiu dos seus pés. Estava sem roupa nehuma. Quando tentou tomar banho, estranhou ao perceber que nenhuma gota de água caia no seu corpo. Ele tinha se transformado em um imã e tudo ao redor estava no mesmo pólo. Logo se acostumou com a situação. Ainda era complicado sair de casa pelado, mas com um tempo ninguém mais reparava. Gostava de saber que nenhum mosquito o picaria nunca mais. Era quase um ser pintado de urânio, só faltava brilhar. Não tinha muito o que reclamar com os benefícios. Difícil era não poder abraçar mais ninguém. Por um momento pensou que se tivesse acordado duas horas mais cedo, sua vida estivesse diferente. Mais atrair tudo em volta também não seria legal.

domingo, 19 de dezembro de 2010

De trás para frente

Se a gente pode, por que não controlar o tempo? Fico pensando que qualquer coisa que eu escrevi seja tão no passado, mas tão no passado que usar uma data errada para publicar não é mais que o certo. Essas linhas, por exemplo, são de janeiro e de 2011. Mas, quem me garante que não são de 2010?

Se eu posso controlar o tempo, não teria porque não o fazer. O próximo passo é apagar o futuro antes mesmo de ele acontecer!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Buuu!

As madrugadas ficaram pequenas demais para tantos fantasmas. E eles perderam o medo da luz do sol. Foi o tempo que iam embora às 6 horas e me deixavam dormir. Hoje usam óculos escuros baratos comprados de algum ladrão. Ainda usam lençóis com furo nos olhos e se movimentam pelo quarto sem nenhuma forma. Há os mais depravados que usam pano transparente e exibem suas partes mais íntimas. Gostam de tirar meu sono com violência. Deixam meus olhos ficarem pesados, meu corpo quente e minha boca seca. Me deito, me cubro e me ajeito nos travesseiros. E eles chegam.

Acendo a luz e eles se escondem dos meus olhos. Ficam cochichando entre si. Dão risadinhas e se calam com respiração bem forte. Sim, eles ainda respiram. Tossem, espirram, espirram... Disfarçam. Fingem que vão embora. Dão tchau e um beijo de cada lado do rosto. Não do meu. Colocam o chapéu e dão meia-volta. Pulam em cima da minha cama, dançam tango na minha mesa jogando livros e papéis pelo quarto e usam minhas roupas como se fossem deles. Apenas uma poderia ser.

Quando se cansam, abrem a janela e somem. Eu fico com o sol forte da manhã, com o barulho dos carros na rua e com o cheiro do almoço sendo feito no apartamento de baixo. Olho no espelho e vejo, agora, um zumbi.

domingo, 31 de outubro de 2010

Ainda sobre coisas inacabadas

Eu do alto de uma arquibancada via você há três anos. Lindo. Eu me via descendo aquelas escadas de dois em dois degraus e pulando os cinco últimos. Agora, eu não pularia nem mesmo uma amarelinha para chegar a você. Até porque ao seu lado a gente sempre saí do céu e para no inferno.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sobre coisas inacabadas

Eu invento longos e complexos diálogos em francês para simular nosso rompimento. Invento as palavras também. Ensaio a entonação das sílabas e as pausas... dramáticas. É tudo muito sussurrado. A culpa é sua que não entende e não a minha que não sei falar. Perco horas criando os olhares e gestos com as mãos. Ando de um lado para o outro, me viro e olho a paisagem na janela. Uma respiração e volto a falar. Embargo a voz e termino. Fecho a janela e me deito. Agora, vou começar a criar nas conversas devassas em espanhol.

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Vi uma foto do seu novo namorado. Gargalhada número um. Vasculhei o álbum da viagem que vocês fizeram. GARGALHADA número dois. Li todas as legendas erradas que ele escreveu. Choro de canto de olho número zero, mas com muito deboche!

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Insisto, mas nunca encontro nenhuma referência a mim nos seus textos. Nem naquele que você publicou no dia do meu aniversário.

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Você nunca vai saber o que é olhar as ondas quebrando no penhasco da Niemeyer e sentir um déjà vu. Com você o Rio não passa de um jamais vu! Mas, sejamos sinceros, você viu coisa demais para quem nasceu numa cidade cujo nome desperta riso.

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O dia que conseguir arrancar todos os dentes da sua boca, deixo de escrever para você!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Talvez fosse agosto

Num canto da casa tudo seria amontoado. Aos poucos, minha mãe ia comprando todos os objetos da decoração. Varias cores de papel crepom, cartolina, bolas de isopor, purpurina, cola, pincel, tinta e canetas hidrocor. Ela também comprava os pequenos brinquedos das lembrancinhas que eram dados em sacos de papel colorido junto com doces. Eu e meu irmão não ganhávamos nenhum deles. Por fim, na estante eram guardadas as muitas latas de leite condensado, os pacotes de trigo, açúcar e chocolate. Muitas latas mesmo. Não, não acabava. Na geladeira ainda tinha banha de porco, camarão, ovos, carne moída e uma pena de galinha.

As cartolinas eram cortadas e viravam convites. O papel crepom frisado era colado a uma bola de isopor com um rosto desenhado. Tudo trabalho de muitas madrugadas. As manhas eram reservadas para o trigo se transformasse em um bolo de vários recheios, ou em pasteis, ou em empadas que também levavam banha, sal, eram preenchidas com camarão, tampadas com massa e besuntadas com gema por uma pena.

Não havia uma só garrafa pet. Era tudo de vidro, no máximo de um litro. Muito barulho de vozes. Um entra e sai de pessoas diferentes que sempre tinha alguma tarefa para executar na cozinha. Quem não tinha nada para fazer, era obrigado a soprar bolas até ficar com a boca branca e os ouvidos zumbidos dos eventuais estouros. Logo a sala virava uma piscina de bexigas azuis e brancas que eram amontoadas em cachos e penduradas na sala.

Já era de noite, mas ainda não havia ninguém arrumado. Era hora dos banhos. Os aniversariantes, os primeiros. Apesar dos três anos de idade, as roupas eram iguais. Só as roupas. E mesmo assim teria um que perguntaria “são gêmeos”. Aos poucos conhecidos e desconhecidos se misturariam aquela decoração de palhaços. Ficariam surpresos que na hora do parabéns ninguém ali estivesse de fato fazendo aniversário.

sábado, 24 de julho de 2010

Vidinha facebook

Nas fotos ninguém tem um sorriso maior que o seu. É daqueles de orelha a orelha. Ninguém é mais feliz no Facebook que você. Suas fotos tem ângulos ousados, enquadramentos instigantes e uma iluminação perfeita. Seus amigos são bonitos, suas roupas são as melhores e suas legendas inteligentes. São viagens fantásticas, trivialidades bem retratadas, intimidades leves. Está tudo lá, separadinho por álbum, data e evento. Nas fotos sua vida é harmônica. Sua casa sempre arrumada. Seu marido não reclama, seu filho não chora e seus pais não incomodam. As contas não vencem e nem atrasam. O dinheiro sempre sobra e é dispensável quando falta. Faz a falência ser charmosa. Nas suas fotos, o Brasil tem sol 370 dias ao ano em um longo verão de dias de 24 horas de luz. A Europa é na esquina e a Argentina no meio do quarteirão – duas casas depois está o Chile. O mar está sempre calmo, a praia vazia e os bares badalados lotados com sua mesa cativa garantida. Mas, na hora que você faz logout... Tudo fica escuro assim como a tela do seu computador.

domingo, 18 de julho de 2010

Outono – primeira página

Rua da Glória. Já está de noite. Você não estava no metrô. Você não estava na esquina da Candido Mendes. Não estava. Blusa azul. Calça jeans. Cabelos úmidos. Cigarro. Sorriso. Um oi. Aperto de mão. Era verdade. O que me falaram. Aquelas paredes como Beatles não me interessavam. Nem a comida. Fazia um calor... Seus cabelos não deixavam de ficar molhados. Você não saia da janela. Era muita fumaça. No meio da noite. Eu tive dúvidas. Se me pedissem certezas naquele momento, eu ficaria devendo. Seu telefone vibrou no bolso da sua calça. Você não tinha a noite toda. E eu. A mim você já tinha.