segunda-feira, 14 de setembro de 2026

o vizinho no andar de baixo toca piano

o vizinho no andar de baixo toca piano. jazz. algo do tipo. no céu, muitos trovões. a pedra do grajaú observa tudo. iluminada pelos clarões. estou deitado no sofá da sala. chapado. estou feliz. penso em você. minutos atrás, eu te comia nesse mesmo sofá. minutos antes, te comi no quarto dos fundos. duplamente dentro de você. nosso beijo escorria por todo o apartamento. nenhum pudor. talvez, a vizinha do lado tenha ficado em horror. nossos gemidos quebravam aquela caladice. eu deitei ao seu lado, você se aconchegou em mim. eu sinto sua pele branca cheia de tatuagens sem muita curadoria e história. você se diz artista e a tristeza que mora dentro do seu olhar confirma. fetiche em designers gráfico deprimidos desde 2012. minha língua ainda sente o cheiro da sua barba. você prometeu voltar, mas eu dormi antes das 22 horas. apaguei bêbado de tanto desejo. e se eu tivesse acordado como o habitual? você nunca voltou. eu fui atrás de você por todas as ruas do bairro. bati em todas as portas. tocava todas as companhias. corria dos cachorros. espantava os gatos. ria das crianças. chorava com os idosos na feira. lembrava que deixei você tomando banho sozinho. te observava pelado por trás do box de vidro. 

a música é tão baixa. a chuva cai forte. uma nuvem cinza esconde a pedra. venta muito. uma balé de galhos. eu queria deixar a janela aberta. eu queria que o vento rasgasse tudo e me levasse em passeio. o bruxo da Sul. aterrorizando o Grajaú. cortando os quarteirões e cabeças. é piano ou vinil? o vento esmurra a janela. eu deitado no chão acordando e tentando caber naquele sofá pequeno que nos coube tão bem. a marca dos seus joelhos lá não ficou. eu errei em deixar você no chuveiro sozinho. eu errei em lavar seu cheiro. faltou tanto o que fazer por mais que muito tenhamos feito em tão pouco tempo. se você tivesse voltado, eu teria me apaixonado por você.  por dois dias e duas noites. até o primeiro táxi chegar e me levar de volta para o meu morro. para a minha janela. para o meu caos. para meu apartamento onde ninguém toca piano. blues. nada do tipo.


sábado, 12 de setembro de 2026

Avenida Júlio Furtado


o barulho dos pneus na pista molhada de chuva. você me esperando do outro lado da grade. já fui pedindo para entrar. quatro lances de escadas. você parado no meio da sala. o beijo. a sua barba arranhando meu rosto. sua língua jogando com a minha. o sotaque pernambucano fazendo cócegas no meu corpo. beck enrolado com maestria. a pedra do grajaú assistindo tudo. a ventania encurvando os galhos e espalhando nosso segredo. o toque da sua mão. a minha na sua. o meu no seu. éramos faísca. fogo viramos. nos engolimos em fagocitose mutua. cotovelos e joelhos na largura de um colchão de solteiro. a luz acesa para ver tudo. o cheiro do poppers abrindo passagem. eu deitado em cima de você. o peso do meu corpo era metade do prazer. suas palavras sujas em baixa compreensão. foi uma. foram duas. a seco. dentro. ficou tudo. dentro da caixa de vidro do box. por que deixei você ali dentro sozinho?

o temporal na janela. você pergunta se pode se sentar na cadeira de praia. eu na de madeira esfrego meu pé no seu. retribui o carinho. a luz baixa da luminária. um risquinho do sol indo embora colorindo o cinza. como chove. eu queria um dilúvio. o 404 viraria a nossa arca. sem bichos, sem noé e nem mandamentos. no bico da pomba branca um cigarro artesanal. você se sentou para calçar seus Vans e soltar mil promessas tão falhas quanto a previsão do tempo.

(continua)

(sem revisão)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Ventilador na mesa


Eu senti uma vibração na mesa. Era o ventilador. Girando de um lado para outro. Tremendo tudo. Desliguei. Estava me desconcentrando demais. A luminária também treme. A culpa é dos meus dedos batendo no teclado. Poderia ser da minha mente reverberando cada uma das inquietações que mais uma vez vão me impedir de dormir antes do sol nascer. Verão no Rio. Antes das 5 é já começa a ficar tudo clareado. Meus pensamentos, não. Eu estipulei que escreveria um texto essa semana. E seguiria assim. No final, um livro de contos. Ou de crônicas. Ou ensaios. Eis um post para meu blog que eu não atualizava desde 2024.
 

Não lembro como pensei em nele exatamente. Acho que estava pensando se começava a publicar no substack (ou no médium). Vim no blog e achei o tal texto de 2024. Publicado no último dia daquele ano. Todo desconfigurado. Eu deveria assim estar quando escrevi e mais ainda quando publiquei. Teve gente que viu. Ninguém comentou. Seria bom se as pessoas agissem assim na vida fora das telas. Viu, mas não comentou. 

Não há um tema claro nesse texto. Talvez, o sono apareça antes de eu sentir que o texto chegou ao final. Vou dormir mais aliviado por ter um risco na minha lista de to do e com o bónus de ter atualizado o blog. Eu fiz isso publicando parte de um livro que eu imaginava estar escrevendo, porém, como foi escrito em 2025, alterei a data de publicação para tal ano - assim, quem vasculhar os arquivos do Esfera dos Intocáveis pode se iludir que eu não abandonei tudo por completo. Eu escavei esse arquivo e, também, dei uma olhada nos blogs do Betão e da Kênia. Eles escrevem melhor do que eu. Reli os comentários que deixaram para mim. A maioria da Raquel. Ninguém (deles) escreve mais (para ninguém) e reler aqueles textos foi como rever fotografias antigas - aliás, faz anos que olho as minhas em papel ou enterradas em backups antigos. Que bom que eles não apagaram nada. 

Eu também não apago nada. Isso pode ser um problema. Vou acumulando memórias. É pesado. É sufocante. É agridoce. É um colchão de segurança. É um refúgio no caos. É o que me ajuda a entender porque estou mais uma vez sentado diante de um computador escrevendo de madrugada da mesma maneira que eu fazia no meu quarto em Laranjeiras, Serra, Espírito Santo. É o mesmo silêncio. É a mesma solidão. Mentira. É ainda mais solitário. Eu não tenho o meu irmão fechado no quarto ao lado acordado vivendo o mundo dele. Não tenho a minha mãe dormindo de porta aberta e as vezes falando. A moto do vigilante não passa, mas tenho alguns transeuntes voltando do Treme treme ou algum mendigo causando ou o metrô balançando a minha janela alertando que já já o dia começa de novo. Eu vou tentar dormir, mas tudo que acabei de dizer vai começar brotar como um feijão num pedaço algodão molhado.