o barulho dos pneus na pista molhada de chuva. você me esperando do outro lado da grade. já fui pedindo para entrar. quatro lances de escadas. você parado no meio da sala. o beijo. a sua barba arranhando meu rosto. sua língua jogando com a minha. o sotaque pernambucano fazendo cócegas no meu corpo. beck enrolado com maestria. a pedra do grajaú assistindo tudo. a ventania encurvando os galhos e espalhando nosso segredo. o toque da sua mão. a minha na sua. o meu no seu. éramos faísca. fogo viramos. nos engolimos em fagocitose mutua. cotovelos e joelhos na largura de um colchão de solteiro. a luz acesa para ver tudo. o cheiro do poppers abrindo passagem. eu deitado em cima de você. o peso do meu corpo era metade do prazer. suas palavras sujas em baixa compreensão. foi uma. foram duas. a seco. dentro. ficou tudo. dentro da caixa de vidro do box. por que deixei você ali dentro sozinho?
o temporal na janela. você pergunta se pode se sentar na cadeira de praia. eu na de madeira esfrego meu pé no seu. retribui o carinho. a luz baixa da luminária. um risquinho do sol indo embora colorindo o cinza. como chove. eu queria um dilúvio. o 404 viraria a nossa arca. sem bichos, sem noé e nem mandamentos. no bico da pomba branca um cigarro artesanal. você se sentou para calçar seus Vans e soltar mil promessas tão falhas quanto a previsão do tempo.
(continua)
(sem revisão)


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