o vizinho no andar de baixo toca piano. jazz. algo do tipo. no céu, muitos trovões. a pedra do grajaú observa tudo. iluminada pelos clarões. estou deitado no sofá da sala. chapado. estou feliz. penso em você. minutos atrás, eu te comia nesse mesmo sofá. minutos antes, te comi no quarto dos fundos. duplamente dentro de você. nosso beijo escorria por todo o apartamento. nenhum pudor. talvez, a vizinha do lado tenha ficado em horror. nossos gemidos quebravam aquela caladice. eu deitei ao seu lado, você se aconchegou em mim. eu sinto sua pele branca cheia de tatuagens sem muita curadoria e história. você se diz artista e a tristeza que mora dentro do seu olhar confirma. fetiche em designers gráfico deprimidos desde 2012. minha língua ainda sente o cheiro da sua barba. você prometeu voltar, mas eu dormi antes das 22 horas. apaguei bêbado de tanto desejo. e se eu tivesse acordado como o habitual? você nunca voltou. eu fui atrás de você por todas as ruas do bairro. bati em todas as portas. tocava todas as companhias. corria dos cachorros. espantava os gatos. ria das crianças. chorava com os idosos na feira. lembrava que deixei você tomando banho sozinho. te observava pelado por trás do box de vidro.
a música é tão baixa. a chuva cai forte. uma nuvem cinza esconde a pedra. venta muito. uma balé de galhos. eu queria deixar a janela aberta. eu queria que o vento rasgasse tudo e me levasse em passeio. o bruxo da Sul. aterrorizando o Grajaú. cortando os quarteirões e cabeças. é piano ou vinil? o vento esmurra a janela. eu deitado no chão acordando e tentando caber naquele sofá pequeno que nos coube tão bem. a marca dos seus joelhos lá não ficou. eu errei em deixar você no chuveiro sozinho. eu errei em lavar seu cheiro. faltou tanto o que fazer por mais que muito tenhamos feito em tão pouco tempo. se você tivesse voltado, eu teria me apaixonado por você. por dois dias e duas noites. até o primeiro táxi chegar e me levar de volta para o meu morro. para a minha janela. para o meu caos. para meu apartamento onde ninguém toca piano. blues. nada do tipo.

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