sábado, 22 de maio de 2010

Escada abaixo

O que aconteceu??? por favor, alguém me explica: o que aconteceu? é como se agora eu morasse em Pequim ou qualquer cidade chinesa. não tenho ideia. do nada, sem que eu percebesse, eu deixei de ser o que eu era. eu perdi o meu lugar, eu perdi meu território, separei meu espaço do tempo, perdi minha hora e tudo mais que poderia perder. mais uma vez, eu pergunto: o que aconteceu. eu era o bom amigo e virei a complicação. eu tudo e virei o nada. me diz, pelo menos uma vez, que seja a única, que seja curta, que seja obvia, mas que seja: o que aconteceu? sozinho, dessa vez, nesse momento, agora, eu não sei responder.

Nas minhas veias correm interrogações. meu coração bombeia dúvidas e meu cérebro não suporta. todas as exclamações, todos os pontos finais, tudo virou um apanhado de reticências. eu era resposta e hoje não sei o que sou. a minha mente é uma tela branca ou melhor em branco. nem isso eu sei. do meu sexto andar eu berro para que alguém me explique. do alto do morro também me esgoelo. fui jogado de olhos fechados pela escadaria. degrau por degrau, vou sendo ferido e mesmo assim não vejo o sangue sair da minha pele porque nas minhas veias há apenas interrogações. e por mais que tente e grite, eu não sei o que aconteceu!

terça-feira, 18 de maio de 2010

O tango do Manco

As luzes foram apagadas. E a música começou. O primeiro som foi o do bandoleon. Uno, dos, tres. Violão. Violão. Violão. Uno, dos, tres. Piano. Siete, ocho. Todos juntos. Não! Gritou algum numa quina da pista de dança. As luzes foram se acendendo gradualmente. Era ele, o Manco, dizendo que não podia dançar. Ele estava sentado no alto de um banco muito alto. Sim, no alto do alto. De lá, não havia nenhuma possibilidade de saberem que ele era manco – e muito menos O Manco. Não teve nenhum protesto das outras pessoas. Nem dos músicos. O Manco deu um sorriso. Era estranho. Parecia que ele também não ria direito, como se só uma parte da boca se abrisse. Era sinistro. O Manco tinha um nariz lindo. Era reto. Sem que ninguém pudesse evitar a música começou a tocar. Uno, dos... E surgiu o bandoleon. Os violões vieram na seqüência com uma rapidez ventânica. O piano ficou mudo. Todos começaram a dançar. A iluminação era bem fraca e azul. Num movimento ríspido, puxaram o Manco do banco. Ele caiu, mas logo o levantaram. Um homem sem cabelos. Ele deu as mãos ao Manco e o convidou para um dança. O Manco nem pensou em recusar. Seu primeiro passo foi um pulo. O segundo passo foi um pulo. E o terceiro passo também foi um pulo. O Manco pulava muito e assim ninguém percebia que ele mancava. Nem ele próprio. Tinha um passo mais elaborado. Ele parava no solo e levantava uma perna. Ele pulava e dava gargalhadas. Seus dentes refletiam a luz azul. Ele sorria para o teto com olhos fechados. E pulava. A pista era dele. Não havia dúvidas. Só dele!

domingo, 9 de maio de 2010

Rua Princesa Isabel

Um entrocamento da minha janela. Todas as grandes árvores foram cortadas. Pique-esconde nunca mais. Nem amigos antigos mais para isso há. É uma rua em que só conheço o começo e sempre estranho quando vou ao fim. Tão pequena e tal longa. Dizer que os melhores momentos da minha vida foram aqui é exagero. Palco dos primeiros melhores é mais realista. Muitas pequenas histórias e grandes narrativas pulverizadas em 23 anos de memórias. Mesmo assim, não quero mais voltar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Meu eterno quarto

As paredes esperam uma mão de tinta há cinco anos. As portas, o verniz que nunca veio. O ventilador funciona bem e ajuda a espalhar por todo o quarto a poeira acumulada em todas as lembranças. Na minha frente o quadro desenhado a giz de cera com a paisagem de Praça Artigas. Perto fica o guarda-roupa quase vazio, mas cheio de caixas – não falarei delas, prometo. Aliás, nem vou abrir a porta desse armário. A direita tem a estante. Uma CPU desligada, com um modem sem conexão, xícaras e canecas, CDs diversos e desimportantes, os souvenires de viagens passadas, garrafas de coca, as esculturas de barro da década de 90, uma gaveta que não vou abrir. Mais um quadro com um desenho do Outeiro da Glória. Um aparelho de som quebrado pede para ser jogado fora. Não tocará mais Björk nele. Bem do meu lado, a minha outra estante. Apenas livros. Quase todos capixabas, quase todos não lidos e quase todos jamais serão. Mais quadros. Três que formam o conjunto “Passando por ele”. Por fim, a cama. Quase vinte anos me suportando. O colchão já cola no estrado e solta muito pó. Tudo aqui solta muito pó. Principalmente, eu.

domingo, 25 de abril de 2010

O manco

Não dava para te ver. Não dava. Era uma fumaça no rosto. Aquele cheiro. Eu não conseguia ver nada. Eu sentia as suas mãos. Não tinha noção de horas, mas sabia que já estava escuro. Ele tinha entrado no mesmo horário que eu. O atendente nos colocou em quartos lado a lado. Acho que queria criar um climinha entre nós. O máximo que rolou foram duas palavras de percurso. Nada demais. Ele ainda tirou a roupa na minha frente. Foi pro mundo. Eu também. Fiquei meio perdido. Subia e descia escadas. Era tão estranho. Abri tantas portas e nunca chegava a lugar nenhum. Alguém começou a me perseguir. Não tenha dúvidas: gostei. Fechamos a porta e ele me beijava enquanto segurava uma lata de cerveja vazia na mão. Nos esfregávamos e ele continuava com a lata. De vez em quando, ele dava uns goles. Deitamos e aquele braço estendido com a lata me incomodou. Tirei a lata da mão dele e fiz ele usar a mão com coisa melhor. Ele pediu para ir embora, eu fingi que me importava.

Você só ficava parado. Conversava com aquele tenista e eu achava tudo bizarro. O que era aquele jornalista famoso distribuindo drinks no bar? Sairia mais barato ele pagar pelo sexo. Nesses lugares, uma hora custa em torno de trinta. Cada bebida custa vinte. Só nessa rodada ele podia ter ganhado uma hora a mais. Você não bebia. Era tão magro que não duvido que nem comer comia. Tinha um nariz lindo que parecia vindo de Praga no primeiro vôo. Andava muito devagar. Bem lento. Bastante calmo. Achava que dessa forma ninguém perceberia? Imaginava que se percebesse perderiam o interesse em você? Eu sei, não se vê muitos mancos nesses lugares. Eu achava um charme você arrastando aquela perna. Jogava a direita para frente e vinha puxado a esquerda como quem fecha um compasso. No seu caso, você era o próprio círculo. Trezentos e sessenta graus preenchidos e esvaziados em segundos.

domingo, 11 de abril de 2010

Já são 7

Eu nunca lembro datas de aniversários. Não é uma questão de amor ou desgostar. Nem tem nenhuma ligação com afinidade ou qualquer sentimento de proximidade. Simplesmente esqueço. Eu tento lembrar. Crio ligações infalíveis e mesmo assim, eu esqueço. A única exceção é meu aniversário. Sempre me recordo. Não é por acaso que nasci leonino. Porém, confesso que essa seria uma data interessante de se esquecer. Só assim para ter festas surpresa. E olha que já tive duas que nem desconfiei. Talvez porque foram comemoradas depois. Justificativas na mesa, posso dizer que ter esquecido de falar sobre o aniversário da Esfera dos Intocáveis é coerente com tudo na minha vida que se diz respeito a calendários.

Já são sete anos de blog. E definitivamente, isso não é pouca coisa. Admito que não escrevo com tanta freqüência e vontade de anos anteriores. As vezes fico mais de um mês sem postar, mas isso não quer dizer que não queira mais. É estranho manter o espaço depois de tanto tempo. Quando eu leio os textos mais antigos sinto um misto de vergonha, melancolia e nostalgia. Não por um passado vivido e narrado, e sim por um futuro que eu sempre esperei e que nunca chegou. Sim, quando eu narrei muitas das minhas vivências, tinha em mente que elas me proporcionariam um futuro melhor. E de fato isso não aconteceu. E o motivo é simples: a realidade é sempre pior, não tem como.

Antes que posso ficar um ranço de pessimismo no que estou escrevendo, preciso dizer que não é nada disso. Provavelmente, muitos daqueles textos escritos jamais seriam escritos hoje. É como se eu soubesse que o futuro ali nunca iria existir e logo não basearia o meu presente nele. Hoje, me sinto melhor para não passar por diversos momentos que podem até ter me dado bons textos, mas que não me deram boas recordações. Deve ser por isso que nesses anos sempre evitei ao máximo escrever sobre passagens ruins na minha vida. Mas, o que é bom hoje, amanhã pode ser o inverso.

Acho que ainda ficou um pouco rancoroso. Última tentativa. Por mais que hoje me sinta tão distanciado do blog, sempre vem na mente os bons momentos que tive aqui. Foi um espaço que serviu para atrelar laços de amizades que duram até hoje. Para viver com força romances que não durariam nada se não fossem essas linhas. E sobretudo para me fazer mais pleno em mim mesmo. Cada vez que escrevi, escrevo (e também deixei de escrever), sinto que me amplio ainda mais para outros lugares e para dentro de mim mesmo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

The Ring

Ninguém sabia de onde vinha aquela música. Era triste. Era sombria. E sabe-se lá como, lúdica. Era lâminas enferrujadas que entravam em meu ouvido. Um híbrido de marcha nupcial e fúnebre. Dependia de quem ouvia. Para mim, lembrava a morte. Vocês sentados embaixo daquela árvore gigante de galhos longos e vigorosos. O sol da tarde batia bem no meio dos olhos de vocês e irritava. Eu era aquela macha negra contraluz. Refletiam. Uma aliança grossa, dourada e com delicados desenhos riscados. O caminho da luz entre o sol e o anel estava cheio de frustrações. Imaginem a poeira que ronda feixes de luz. A mesma coisa. O seu anel sumia nos cabelos dele. Aquela carícia era minha. A mão dele no seu rosto. A música rasgando meus tímpanos e martelos. Resolvi engolir a música e minha garganta foi sendo estraçalhada a cada mastigada. As lâminas circulavam pelo meu corpo. Cortavam minhas vísceras e faziam o caminho sangue pelas veias. Meu coração foi moído em segundos. Era uma música fúnebre.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Desencanto Silvestre

Demorei muito tempo até descobrir que dava para ver o Cristo Redentor da Praça Cuauhtemoc. Informação desimportante. A rampa leva aquele teatro de bonecos. Nenhum guia informa isso. Aquelas grades nada protegem. Vamos ouvindo o barulho dos passos. Ritmados parecem um coração batendo. Quando se passa pelo túnel - ou seria viaduto – o som fica seco. Você me beijou pela primeira vez no ano. Perguntei seu nome por nada. A minha mão percorria seu corpo. A gente ficava de costas para a baía como se fosse um conjunto de água qualquer. E era. Tentou levar sua língua para além da minha boca e não entendeu a proibição. Eu estava ferido, por mim mesmo, ferido. Me fez ser único por menos de uma hora. Dois minutos depois beijava outro como se ele fosse o primeiro.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Tinta Fresca

O barulho começa antes das 10 horas. O sol nasce bem antes disso. O vento dificilmente entra pela janela. As paredes permanecem quase nuas. O chão de marcas de muitos outros sapatos. A cama ainda balança de um lado para o outro. A mesa levita entre a gravidade e uma base em parafusos. Roupas espalhadas pelo piso. Roupas jogadas dentro de malas. Roupas penduradas na cadeira. Os livros foram colocados em ordem, mas fora da altura dos olhos. Nem tudo foi desembalado. Há tanto espaço.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Lápis nº2

Era uma metade de lápis sem ponta. Não tinha cor. Grafite. Com os dentes apontei. Mastiguei a madeira e depois engoli. Comecei a desenhar. Chão. Paredes. Teto. Geladeira. Fogão. Liquidificador. Desenhei em tudo. Não tinha forma. Mas, não era abstrato. As pessoas tem a mania de achar que um é antônimo do outro. Quanto mais eu riscava, mais fina ficava a ponta do lápis. Os riscos já nem davam para ser vistos. Foi a hora em que fiz os melhores desenhos.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Antônio para Antônio (Ainda)

Lapa, 13 de outubro de 2009
Antônio,
Confesso que estou impressionado com o sue cinismo. Fiz uma pausa de dois dias nessa frase e percebi que ainda é possível vivenciar uma série de surpresas bem mais desagradáveis. Sim, você é cínico, mas ainda é possível encontrar gente pior. Ou melhor, versões suas que muito se parecem, mas que se diferem na intensidade e forma do mal que causam. É claro que tenho que lutar contra a minha tendência a me fascinar por esse tipo. Mas, antes disso preciso deixar de pensar que no fundo essas experiências mal-sucedidas possam me beneficiar. Já tive ganhos demais com isso, creio ser a hora de usá-las. Não é possível que seja um tipo de vivência meramente acumulativa que comporia um inventário de angústias e fracassos vividos que são listados aos amigos de forma mórbida. Antônio, comecei essa carta para você e agora percebo (termino) que é para todos os outros perdidos entre passado, presente e futuro. Sendo cada um deles pura criação minha, finalizo essa carta e a destino para mim.

Sem mais

Antônio

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Avenida Marechal Rondon

Apenas carros em alta velocidade. O sinal vermelho é uma pausa estranha ao fluxo. Senhoras gordas e mulheres em micro-shorts atravessam correndo a avenida. Tudo parece que vem do nada e segue para lugar nenhum. Esperando o ônibus, ela anuncia a notícia que acabava de ouvir no seu mp3 da Uruguaiana: o Brasil ganhou. Tinha uma felicidade solitária no seu riso. Se sentia a mensageira das boas novas. Só ela sabia o que aquilo significava para si. Nunca mais voltaria ao hospital da redondeza. Quando o 510 chegou, entrou e sentou alegre numa cadeira na janela. Dois dias depois, morreu.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Antônio para Antônio

Lapa, 21 de setembro de 2009

Antônio,

A intenção é que você nunca receba essa carta. Estou sozinho no meu quarto trancado. Não tenho cama, as paredes sem meus quadros e o guarda-roupa com as portas soltas. Falta vida aqui dentro. Durmo em dois colchonetes finos emparelhados cobertos por uma colcha grossa e um lençol novo. Uso dois travesseiros. Um de espuma e outro de penas de ganso e me cubro com uma manta que comprei no Nordeste. A cortina não tampa toda a janela e o som de fora entra sem pudor junto com a luz do dia. Sonhei com você na noite passada e é por isso que estou escrevendo. Pelo sonho e não por você. Minha campainha tocou e pelo olho-mágico da porta não pude identificar mais que um vulto. Abri a porta e você sorriu. Estava de calça jeans com a barra da cueca a mostra. Sem camisa e suado ou molhado – não lembro do gosto que tinha quando te lambi. Sua pele estava acenourada como se você morasse à beira-mar. Seu cabelo estava gostoso de passar a mão. E seu sorriso foi o catalizador para te jogar no meu colchão de casal que estava na sala. A cada fechada de olhos para te beijar, você ficava mais sem roupa. Lembro do reflexo do sol na pelugem da sua bunda e da voracidade com eu passava a língua nela. Minhas mãos deslizavam pelas suas costas em movimentos ritmados que sempre terminavam por suas suculentas carnes. Apertava seus braços e massageava seus mamilos com as pontas dos meus dedos. Beijava sua boca deitado em cima de você. Sua barba avermelhava o meu rosto. Tínhamos a cor de uma fogueira. Eu segurava seu pau pequeno e fino enquanto te invadia. Você me engolia quente. Nos engolíamos. Deitado em cima de você, olhava seu rosto encharcado e aquele mesmo sorriso da porta. Tentávamos engatar uma conversa pós, mas nenhuma palavra surgia. Mentira. Às vezes conseguíamos formar uma frase, mas nunca tinha nexo. Sorriamos como nos entendêssemos, mas na realidade não. Olhávamos um para os olhos do outro e não nos víamos. Quando acordei, percebi que nunca existíamos. Sempre fomos enuvenzados.

Sem mais

Antônio

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Estrada do Galeão

Exatamente na hora marcada, ele chegou à porta do aeroporto. Me esperava no desembarque azul – internacional. Seria difícil ele entender que Vitória não fica em outro país? O carro só tinha duas portas, era pequeno e sem ar-condicionado. Desde quando carioca ignora o calor? Disse que foi de bom grado, mas porque era no Galeão, se fosse o Santos Dummont, ele não iria. Alegou que não gosta de sair da Ilha pra nada. Tomei a direção do volante e joguei o lado dele do carro contra um caminhão de carga. Agora, ele vai dormir na geladeira do IML, no Centro, para deixar de ser mané.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Pronomes

Suas mãos
cabelos dele
A boca
dele
dentro da sua
Você
nele
Ele
seu
Meus olhos

BH - Rio Setembro/2009 01h19

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Roller-tip pen 0.5 (Liquid Ink)

Na pressa você deixou a caneta destampada sobre minha cama. Só notei quando vi meu lençol branco todo manchado de tinta azul. Tarde demais. Já tinha dado tempo do chão do quarto ter sido inundado e agora, os meus pés brancos estavam azulados. Corri para jogar pela janela aquela caneta maldita, mas no caminho as paredes e até mesmo o teto ficaram azuis. Enlouquecido, me encostei na parede da sala e contemplei aquela imagem à la Derek Jarman. Só faltavam as vozes ao fundo. Arranquei as roupas que ainda vestia e rolei pela poça de tinta até ficar completamente azul. Meu cabelo pingava de tão encharcado. Fui atrás de mais canetas de outras cores para quebrar com a monocrômia. Apenas achei da mesma cor, apesar das embalagens dizerem que eram vermelhas, verdes e pretas. Resolvi então tingir todas as minhas roupas, cobertores e toalhas. A partir daquele momento, a tirania do azul estava decretada. Geladeira, fogão, ventilador... nada, mas nada mesmo ficou de fora. Nem mesmo meus dentes e minha língua. Por fim, só restava uma coisa de cor diferente: meu sangue.

terça-feira, 28 de julho de 2009

RUA DOS INVÁLIDOS

Da minha janela vejo uma árvore seca. Prédios altos sendo vagarosamente iluminados. Chove. Um vento muito forte deforma todos os guarda-chuvas e sombrinhas que o desafiam. À esquerda, um prédio antigo transbordando sofrimento no lodo de sua pintura. À direita, a dor a cada visita morta que chega. Abaixo álcool e sujeira mesclados com a felicidade de um gol. De frente, uma árvore seca. Sem folhas, apenas galhos. Assiste a tudo aquilo sabendo que no final todos ficaram como ela.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Último carnaval

Só hoje encontrei a senha do meu e-mail antigo. Eu já tinha feito o esboço dessa carta. Resolvi que seria assim, por papel, que mais uma vez iria te procurar. Desde que apaguei meu perfil no orkut e meu fotolog, nunca mais trocamos uma mensagem. Não tenho usado nenhum tipo de messenger e nunca mais abri meu skype. Você jamais me passou seu telefone e também nunca pediu o meu. Enfim, não havia como a gente se comunicar.

Não sei como contar que eu não morri. Não tenho idéia de onde surgiu essa história. Quando percebi, o enterro já estava marcado, túmulo encomendado e as coroas de flores chegando. Tão lindas e tão caras. Ganhei um obituário de uma página no primeiro caderno do jornal de domingo e a metade dos classificados eram mensagens lamentando a minha “precoce partida”. Meu velório foi concorrido e demorado. Por fim, minha família que nem é judia se trancou com setes dias seguidos dentro de casa em luto. Só saíram para a missa na catedral metropolitana com o cardeal arcebispo.

Fiquei confuso com a situação, mas não posso mentir: eu fiquei deslumbrado com tudo. Minhas melhores fotos no jornal, “tão jovem e bonito para morrer”, lamentou uma leitora da seção de cartas. Até no busto de bronze no jazigo, fiquei bem. Como eu poderia simplesmente dizer que era tudo um engano, que eu estava (estou) vivo, mesmo que gordo e com alguns anos a mais na face? Não dava. Tinham eternizado a minha imagem. A mesma que ficou para você naqueles três dias de carnaval que passamos juntos numa praia na divisa entre o Espírito Santo e a Bahia. Morto, era como se aqueles dias fossem intermináveis, em loop.

Não sei se agora você ainda lembra. Mas, eu nunca esqueci. Você foi meu grande e eterno amor de carnaval. Sazonal, mas intenso. Espero muito que um dia a gente volte a se corresponder e que você entenda tudo o que fiz, ou melhor, que deixei de fazer. Anseio que você entenda meu encantamento por essa morte falsa, porém onírica. E que também compreenda que tive receio de que, depois de terem feito esse luto por mim, não quisessem chorar mais uma vez quando, de fato, eu morresse. Você não tem idéia de como é triste uma funeral vazio. É como se a gente não tivesse morrido.

Um beijo com saudade,

H.S

Vitória, 13 de Março de 2009.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

programa de vovó

Acho televisão uma coisa enfadonha. Antes que pensem que é birra aos avanços tecnológicos, já digo que não. Até porque, qual a grande tecnologia da/na televisão? A maioria das novelas tem a história parecida com as três primeiras que vi antes de ir para o colégio de freira no norte do estado. Acredito que programa de fofocas e receita é coisa de/pra velha que não tem o que fazer em casa. A vovó, aqui, é ocupada. Assistir a telejornal é coisa de masoquista. E a vovozinha, aqui, é uma dominatrix. Prefiro desligar a TV e viver a pornografia. É assim que volto do mercado sempre com o carrinho cheio.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Cerveja, por favor

Não sei quem inventou que velho tem que andar com velho? Essas excursões da “melhor idade” me apavoram e me deprimem. Detesto ter que esperar as “amigas” que a cada dois passos, param para “tomar um arzinho”. Acho “o” fim, aquelas que não podem ver uma planta bonita e já querem pegar um muda. Se não cuidei de criança, lá vou cuidar de uma avenca?! Quando me aparecem com suco ralo e sem açúcar na hora do almoço, peço para morrer. Eu tomo é cerveja! E nem adianta me dizer qual é “o” segredo dessa torta de camarão com palmito. De-tes-to essa mania de cozinhar.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Manchas de você

A cadeira está no meio da sala. Parada. Imóvel. Quente. Os jornais soltos se espalham a cada rajada de vento. Os Classificados estão grudados sobre a televisão. A minha camisa ainda pendurada na cama tem você em manchas. Assim como a minha parede e meu piso de mogno branco. É bem capaz que eu mesmo tenha manchas de você na minha pele. Pelo meu peito. Barriga. Lábios. E nuca. Se eu reparar bem vou achar o desenho de um leito de rio percorrendo minhas coxas e desaguando nos intervalos entre os dedos de um dos meus pés. Não vou desconsiderar as manchas mais profundas – na mente, na alma e na lembrança. É bem capaz que a nascente do tal rio seja bem no meio dos meus olhos, entre eles. Dificilmente, antes de chegar às pernas, tudo deve ter percorrido um acidentado caminho pelo meu corpo. Sou todo uma grande mancha de você, a ponto de, no final, ter apenas respingos de mim. Quando me olho no espelho pendurado em frente a cama, me enxergo transparente com veias expostas sem sangue e preenchidas por você. Venoso.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Pele de Veludo

Jamais freqüentei baile da terceira idade. Não sei jogar dominó e a tal regra do proibido dar caroço, me incomodava. Isso de ter que dançar com todo mundo não me agradava. Era só o que me faltava não poder recusar parceiro depois de velha. Sempre fui enxuta. Muito bem cuidada. Quarenta por cento da minha pensão era gasto em produtos da linha Renew. Ou seja, o mínimo que eu queria era bailar com homens de quarenta anos com fôlego de vinte in natura. E se tem uma coisa que aprendi nessa vida era saber exatamente onde encontrar o que precisa e pagar pelo preço justo.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Códigos e Alianças

Sempre achei tricô um porre. Quando meus netos nasceram, eu já sabia os códigos da Hermes e da Quatro Estações de cabeça. Nunca veio um só conjuntinho de cor diferente ou número menor. Desde nova achava cabelo grisalho um pavor e aderi ao acaju antes do baile de debutante. Nunca gostei dessa tradição de duas alianças após a viuvez. Quando meu primeiro marido morreu, transformei a aliança em um brinco – ela era fina e só deu para um. Dois dias após a morte do segundo, fiz o outro brinco e com o ouro que sobrou um pingente de coração trancado. Pena que não deu para fazer a chavinha.

sábado, 11 de abril de 2009

6 anos de Esfera dos Intocáveis

Um dia resolvi que teria um blog. Para contar histórias e causar intrigas. Escrevi sobre fatos e desenharia sobre fotos. Jogaria fumaça na verdade. Me esconderia nas palavras. Numa tarde comecei esse blog. Sem assunto. Sem computador. Sem estilo. Passou um ano, passaram dois, três, quarto e cinco anos. Numa noite qualquer esqueci de lembrar. Tudo estava tão diferente. E talvez esse esquecimento fizesse parte do blog ou melhor da Esfera dos Intocáveis. Hoje, seis anos depois eu tenho um blog. Por vezes, esqueço que o tenho. Mas, sempre terei. Sem fumaças, sem fotos, sem revisão e sem muitas coisas. Inclusive sem um sexto texto comemorativo!

sábado, 4 de abril de 2009

A chegada

Nunca fui tão feliz na minha vida. E olha que não vivi pouco. O meu quarto aqui no asilo é o mais movimento. E não é por acaso. Sempre soube receber. Quando meus filhos me internaram achando que iriam por fim a minha vida sexual, mal sabiam que ela só ficaria mais animada e rentável. Afinal, sempre soube receber. No começo, era tudo um hobby, quase uma brincadeira de criança. Com o surgimento das pílulas azuis passei a cobrar com desconto direto nas aposentadorias. Tem muito velho que gosta de bancar o esclerosado para não pagar. Faço fiado sim, mas só por crédito consignado. E nunca, mas nunca em mais de seis prestações. Posso ser velha, louca não.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Colônia de Fungos

Fungos cresciam na sua pele durante a noite. Acordava sempre com o corpo todo branco tomado pelo bolor. Já tinha feito de tudo. Dormia de cortina em lençóis esterilizados. Tomava banho de duas em duas horas. Por fim, trocou o dia pela noite. Nada resolvia. Passou a usar tubos metálicos no nariz para que a colônia não lhe impedisse de respirar. Já na boca usava uma bexiga cheia de farinha e muito batom pedido em revista. Certo dia resolveu dormir dentro da piscina. Três semanas depois já respirava sem ir à superfície e bactérias zinguezangueavam em seus músculos.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Enumerações

Eu poderia enumerar os motivos para nunca mais querer você por perto. Um por um numa lista que daria pelo menos duas laudas em corpo 8 e fonte Times New Roman que ocupada menos espaço. Não, não é uma coisa que eu queria fazer. Desgastante para mim e creio ainda mais para você. Afinal, ninguém gosta de ter ser defeitos apontados, muito menos organizados, categorizados e publicizados. Mas, se você continuar insistindo em ficar me procurando e achando que ainda sinto alguma coisa por você (nunca senti, mas uso o “ainda” para não parecer tão frio), serei obrigado a dizer a todo mundo que detesto aquela sua blusa preta com estampa em stencil. Você a trouxe de São Paulo, mas mente dizendo que comprou em Manchester. Quando é que você cruzou o Atlântico? Você quer que eu espalhe por ai que você usa cinta? Ou que a cor do seu cabelo não é mesma dos seus pêlos pubianos? Imagine a cara das pessoas ao descobrirem que a faculdade de jornalismo que você cursa é um supletivo noturno! E se eu resolvesse fazer confissões de alcova? Tamanho, posições e fetiches... Não, só usaria desses artifícios bem no rodapé da lista. Porém, não deixaria de falar que você votou num candidato de extrema direita, mesmo fazendo campanha para um radical comunista. Você não sabe a diferença entre um e outro, mas finge muito bem.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Chamas

Você quer que eu diga como estou agora? Enrolada em um edredom verde com linhas beges que foram quadrados. Seria mais fácil dizer “xadrez”, mas nunca fui dessas garotas cheias de objetividade verbal. Deve ser por isso que é tão complicado para mim, dizer exatamente como eu estou nesse momento. Se você estivesse aqui pertinho, saberia que estou febril e isso se juntando a minha temperatura habitual quer dizer... Sempre me travo. Desculpa, desculpa. Vou continuar com a descrição. Por debaixo desse edredom, visto apenas uma peça. Será que você conseguiria adivinhar? Você sabe que nunca fui fã de calcinha e sutiã, então terá o que eu estou usando. É, acabo de perceber que o verbo “usar” é mais apropriado que “vestir”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Explicações (sans Freud)

Sua mãe compra e lava suas cuecas. É ela que diz o que você pode ou não fazer. Cada passo que você dá ela tem que estar ciente – sugiro um GPS. Ela escolheu sua profissão e até a faculdade que você deveria cursar. O seu lençol de cama tem o gosto dela. Da mesma forma que todas as suas camisas, calças, bermudas e lógico, cuecas. Seus namorados é ela que define – e depois dita como o relacionamento deve prosseguir. Você nunca resolveu qual seria seu corte de cabelo ou se usaria barba e bigode. Seus passos são sempre por ela vigiados, desde a compra do sapato ao jeito que você calça. O tempo do seu banho, a hora das e as suas refeições, o seu sono é ela quem determina. Agora, me diz, aqui no meu ouvidinho, se ainda não entendeu porque te acho um grande asshole !

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O Sanduíche

Provavelmente a idéia de ir àquela lanchonete metida a besta não tinha sido dele. Sempre se entediou com comidas que exigissem um ritual maior que olhar, pegar e levar a boca. Não a toa, para ele, nada mais pretensioso que culinária japonesa. Rejeitava com todas as forças o vegetarianismo por achar uma babaquice o “sentir a comida”. Apesar das restrições, era uma pessoa sociável e para ela abria várias exceções, fazia diversas concessões. Logo, dizer que estava ali forçado, de frente ao balcão, era inverdade. Mesmo com toda cara blasé, de fato, estava feliz. Tentava ser altruísta.

Pedir um sanduíche não seria um grande mistério. Escolheu o pão - “integral”, o recheio - “presunto, do de porco mesmo”. Na dúvida - ou desconhecimento - dos molhos, “não poe nenhum”. Pensou melhor. Podia não ter noção do que significava chipottle, mas compreendia o aviso de “picante” ao do nome do molho. Achou uma perda de tempo que embalassem tudo com tantas voltas de papel sendo que ele desembrulharia em coisa de cinco passos. Pegou sua bandeja e foi encontrar com ela que estava sentada numa mesa na calçada com um casal de amigos gays cinéfilos e uma amiga recém separada. Ele achava todos presunçosos. E eles sabiam disso – num um jogo da verdade, ela tinha relevado. Mas, ele não imaginava que eles sabiam e assim se comportava. No fundo, ela sentia que todos naquela mesa a invejavam. E disso, ele tinha certeza absoluta – de alguma maneira, todos passavam isso no olhar, por mais irônicas e ácidas que fossem suas palavras para ele.

Vejam como ele demorou para fazer o sanduíche. Deve estar sentindo falta da mortadela e do ovo frito – comentou uma das bichas enquanto todos riam, inclusive ele que se sentava e ajeitava o pé da cadeira preso numa das fretas do piso de madeira. Rasgou as voltas de papel que mumificavam o sanduíche com a voracidade de quem se incomoda em não ver a cor da comida. A amiga fez cara de “como ele é ogro” e começou a fala sobre a última cena do filme que eles tinham acabado de assistir num festival. Ele tinha cochilado toda a metade inicial do filme. Quando acordou e percebeu que ainda estava na “mesma cena”, resolveu voltar a dormir – acomodado no ombro dela que lhe acariciava os cabelos ainda curtos do último corte a máquina que ela tanto gostava.

Ele gostava da maioria do cinema europeu desde que falado em palavras que sinalizassem alguma emoção, coisa que não percebia em filmes nórdicos e do Leste. A amiga dizia que tudo naquele filme a lembrava do trabalho de um diretor obscuro da China que sido influenciado pela vanguarda russa e pela filosofia sul-coreana. O outro amigo gay concordou em parte. Acreditava que havia um certo resquício de cinema escandinavo alternativo do início da década de 80, o que deveria ser resultado de algum intercâmbio cultural clandestino feito pelo diretor na época em que exercia atividade diplomática na embaixada em Helsinque.

O outro gay disse, limpando seus óculos embaçados, que havia um detalhe não apontado por nenhum deles e que era fundamental para o peso da trama. Também comentou sobre que a interpretação – extraordinária E soberba – da protagonista sinalizava que mais um Urso de Prata estava a caminho e seria recusado mais uma vez, como ela fazia com todos os outros prêmios. A diva não suporta nenhum tipo de competição e sempre acredita que isso só incentiva a exploração do homem pelo homem – informou empolgado enquanto recolocava os óculos.

Ela ouvia tudo atentamente até intervir dizendo que eles buscavam explicações formalistas e que com isso não se deixavam envolver pelas cenas cuja fotografia de tão bela a fez chorar por vezes. Era como se eu estivesse tête-à-tête com todas as principais telas do expressionismo mundial fundidas. Ele se escondia atrás do sanduíche e se limitava a mastigar. Me arrepio - disse ela indicando os pelos do antebraço onde exibia uma pulseira de marfim que ele tinha comprado e ela escolhido.